A dureza da morte sem narração

Eu copiei o titulo deliberadamente de um ensaio do Roberto Pompeu de Toledo, colocado na revista Veja no ano 2000. O texto original está aqui.

Há algumas semanas B. e eu começamos a fazer a árvore da família juntando as nossas duas. E mexer com a nossa ancestralidade tem lados lindos, do lembrar dos bons momentos, das pessoas que nos cercaram; e momentos muito emocionais, como descobrir o nome de parentes que não conhecíamos ou ainda, relembrar-se da passagem de gente que amamos muito. Aqueles que foram mais próximos são os mais difíceis. Mas, existem os outros. Gente que ouvimos falar, que fazem parte da nossa herança, no entanto. Relendo o texto do Pompeu eu fiquei muito incomodada porque existe um daqueles galhos do meu lado da árvore que passou por isso. Teve sua morte sem narração. Foi enterrado como indigente até que o descobrissem ali. Ou todos outros aqueles de quem não existem notícias.

Viver é de quem vive. Quero dizer, sabemos que uma hora acabe, mas, em geral, não buscamos esse fim. Assim, quando ele ocorre, discorremos sobre ele. Talvez para tanger a nossa própria finitude. Quando uma pessoa simplesmente desaparece da vida das pessoas, sem explicações, desperta-se uma angustia imensa. Quem sabe não sejamos tÃo em-si-mesmados que detestaríamos a ideia de simplesmente sumir.

Penso que a possibilidade ou a certeza do fim é o que regula o nosso bem viver. Sabendo que esta vida finda e que, por mais que existam outras vidas depois dessa, como ESTA não viveremos mais. Assim, por que não fazer dela o melhor possível? E dessa forma, reconhecida quando o fim chegar. O que mais pode regular o nosso ser, o nosso melhor potencial senão saber que podemos deixar uma marca? E que seja uma decente. Não que cada um de nós tenha de descobrir o ovo de Colombo a cada dia ou rescrever a teoria da relatividade, mas não seria importante que deixemos uma história? Um dito? Um qualquer coisa que deixe uma pista do caminho que trilhamos, pois quer-se crer que seja um caminho legitimo.

Sinto muito por tantas pessoas que tem morrido, todos esses dias sem que ninguém possa dizer: nossa, morreu? Bombardeios, aviões que somem e se desfazem sem que os bem-quereres possam dar um adeus. Sinto muito mesmo. Que haja importância na sua partida. E que haja lição em sua vida e partida. Que sejam recebidos de braços abertos lá, além.

Pietra, que fica muito emocional com esse tipo de coisa…

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A tal imagem do corpo…

Quem tem medo do espelho?
Quem gosta do que está vendo nele?
Será que nós vemos exatamente o que o espelho está refletindo?
Quem está se enganando ou sendo enganada?

Todos os dias, eu não posso negar, eu dou uma namorada no espelho. Para rever o que eu gosto muito, muitas vezes para ficar satisfeita com o que está ali e eu estou levando porta à fora, e ao mesmo tempo, para dar uma pequena torturada pessoal…

Talvez as meninas que não nasceram com a tal barriga negativa ou que tem culote ou que tem buço ou que fixam nos exercícios localizados fazem a mesma coisa. Barriga gordinha. Não sou adequada. Pareço isso ou aquilo… Tal roupa disfarça, tal cor é melhor para vestir um corpo que sempre tem uma coisa que não serve.

O que não serve? Será que eu estou mesmo tão fora do mundo? Será que eu sou assim, tão inadequada? Por que, tantas vezes, quando fazemos um veneno alheio, as formas do corpo são mencionadas?

O que aconteceu? Quero dizer, mesmo sendo pessoas que pensam, que refletem, que tem discernimento, caímos como patas em ilusões. Da melhor roupa, da melhor forma… tem horas que eu tenho vergonha de mim. Tanto por me prender a bobagens quanto por deixar o corpo ficar de um jeito que eu ACHO que não vale.

Pra que tanta pressão? O corpo é perfeito. Movimenta-se. Toma seu lugar no espaço. Proporciona prazer. Pode ser bem cuidado com comidas gostosas… claro que pode ser judiado tb, por uma porção de coisas que fazemos, mas acredito que, com um pensamento saudável, ninguém vai jogar o próprio corpo pela janela.

Os piores juízes do nosso corpo somos nós mesmas. E quantas vezes, por dia, precisamos nos lembrar que podemos nos levar com leveza? Com a beleza que é inerente a cada pessoa?

Quer ver como eu e você somos normais e lindas, como as outras mulheres do mundo? Veja as galerias do The Nu Project.

Somos um corpo, sem dúvida. Que tem suas sensações e, muitas vezes, são com elas que interagimos com o mundo. Estamos vivas e envelhecendo e aprendendo e o que mais podemos querer? Pele enruga, os olhos começam a falhar… sua cabeça? Essa sim, tem de estar em forma. Forma de pensamento inteligente e que aproveita tudo que o corpo já te ajudou a fazer.

Somos todas lindas!
Pietra, que mesmo achando que poderia diminuir uns kilos adora o que o corpo faz por ela; e quer mais sorrir do que reclamar =)

Amigos abridores de olhos

A alegria da interação humana realmente é muito importante. Quantas vezes não saímos de um encontro com os amigos revigorados? Tanto pelas conversas que jogamos fora, quanto pelas ideias que trocamos, pelas perspectivas que ganhamos?

Eu sei que o computador, os blogs, as redes sociais facilitam uma barbaridade uma porção de coisas, de encontros, de falas. Porém, também, ela banaliza uma porção de outras coisas. Quero dizer, quantas vezes, acabamos deixando de responder um email ou uma mensagem: eu respondo depois. No face to face não tem jeito: tem a voz, o jeito de falar, os exemplos, a fluidez das conversas. E estou 100% a favor disso.

Estar com pessoas que gostamos, que confiamos nos possibilitam nos olhar pelos olhos delas. Perceber que temos pensamentos que são apenas tão grandes quanto nossas cabeças, ou que temos ideias que podem ser compartilhadas e nossos pontos ou objetivos ganham apoio e afirmação.

Conversar sobre aquilo que se gosta de fazer. Contar coisas novas. Ouvir e entender os fazeres das outras pessoas. Aliás, pessoas são sempre tão interessantes. Fico inclusive pensando naquelas que eu não gosto e imaginando se, para as pessoas que elas gostam e confiam, em suas atitudes que eu discordo, não estão fazendo seu melhor.

No geral, eu libriana, não acredito que as pessoas são vilãs por si. Quero dizer, não penso que as pessoas tomem determinadas atitudes – talvez até as mais reprováveis ou questionáveis – na intenção de errar ou de prejudicar. Eu espero. Sempre tem a excessão.

Enfim, acho importante que tenhamos o desprendimento de ouvir as pessoas. De perceber como pensam. Eu sei que, quando estamos muito envolvidas em uma questão, tendemos a falar demais sobre ela – falar sobre já é fazer alguma coisa. Mas, a partir do momento que deixamos entrar na construção de ideias de quem confiamos, estamos desfraldando um mundo muito interessante e que pode nos apoiar.

Pietra, que convida para o chá.

Para as amigas que querem abandonar o alicate de cutícula

Faz um ano e meio, mais ou menos. Consegui livrar-me do alicate. Mediante a muita pesquisa e tentativas.

Seguem então algumas dicas e o que eu uso. Espero que inspire!!!!

É dado que fazer unha em salão ou esmalteria incorre em tirar a cutícula com alicate… tiram lá os cantinhos e vira e mexe, sai um bife. Geralmente também a base da unha acaba ficando com a pele vermelha, irritada. Das várias pesquisas que eu fiz, ficou claro que tirar aquela “lua” de pele que fica na base da unha pode deixar o local muito disposto à infecções, micoses etc. E sempre tem um jeito mais natural de lidar com a coisa. Claro que nem sempre é simples, mas acredito que seja mais saudável.

Quando você decide parar de cortar, são uns dois meses até conseguir “domar” aquela pele que cresce desenfreadamente e para todos os lados. Paciência aí.

Acredito, pela minha experiência, que o grande pulo do gato são a hidratação, ou seja óleos, cremes para as mãos, cera nutritiva.  O outro é ir empurrando com carinho e, notando as peles que se desgarram, ir esfoliando. Água morna, toalha, escovinha fazem bem esse papel.

O fato é que, depois que aquela pele fica inteira e vai sendo cuidada, as células mortas vão saindo naturalmente e o processo hidratação + esfoliação fazem bem o papel.

Pessoalmente, eu não tenho do que reclamar. Por vários motivos. Depois de tantos meses, a cutícula diminui e a esmaltação fica perfeita. Quem olha os dedos, não diz que não foi cuidado profissionalmente.

Ainda para ajudar, existem muitos produtos interessantes para manter a cutícula saudável e sem descamações. O site Unha Bonita  oferece o Prime Cuticle que faz bem o papel, juntamente com os outros produtos que eu listei aqui. E uma pesquisa no Google também apresentará produtos interessantes.

Fazer a unha em casa é uma delícia. Você não depende de horários e o custo – diluído dos produtos que se investe – é bem mais baixo e a unha nunca fica feia: lascou o esmalte? Troca! Comprou esmalte novo e está louca para experimentar? Pinta! É quase como um hobby. Super recomendo =)

Pietra, que está se tornando (quem eu estou tentando enganar?) aficcionada por esmalte e cuidados das unhas

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Para hidratar: creme de mão e cera nutritiva – várias vezes por dia.
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Para ajeitar as cutículas sem cortar: cuticle remover ou creme de cutículas, mira cutile – para todos os dias – palitinho para empurrar e escovinha para esfoliar. O óleo eu uso para hidratar enquanto eu faço as unhas.

Nivelar por baixo é dar oportunidade igual?

Vendo a revisão de um material didático para o primeiro ano do Ensino Fundamental 1 destinado à escolas públicas, passei por uns momentos de choque e de reflexão.

Na educação existem muitas formas de entender o processo e, com isso, muitas outras tantas de aplicar o ensino de forma com que ele se dê e o aluno aprenda alguma coisa. Educação é um estudo e isso pressupõe que correntes sejam contrárias, até contraditórias. Envolve filosofia, como o professor se relaciona com aquilo que ensina, quais estratégias conhece, como aprendeu: o que pode gerar embates homéricos entre linhas de trabalho.

Sem dúvida, o tempo histórico, o local, a cultura e o pensamento de um povo influenciam na forma com que as crianças ou alunos são entendidos e na forma com que se trabalha com eles. Para mostrar isso estão aí as idéias do Paulo Freire, da Maria Montessori, da pedagogia Waldorf. E uma coisa é certa: se quem trabalha com essas linhas – e não métodos – não acredita nelas, elas valem nada.

Uma forma de trabalhar que é muito corrente e alvo de críticas é o tal do “ensino tradicional”, conteudista e classificatório. O cume dele, na minha opinião, são testes como os vestibulares. A questão de absorver e reproduzir o máximo de conteúdos, conceitos, fórmulas e afins geram pessoas que têm muitas informações e que, não necessariamente, conseguem fazer relações entre essas coisas todas. Além de uma competição brusca: quem sabe mais, pode mais, vai mais além.

Toda vez que falamos de educação tem tanta coisa envolvida que não se limita ao fato de ter um conteúdo, um professor e um aluno. A sala de aula fala, os livros, textos didáticos influeciam, a postura do professor é determinante. Na educação, tudo significa alguma coisa. Tudo que o professor faz demonstra a sua filosofia sobre ensinar e aprender.

Dito isso tudo, ao observar a feitura daquele material didático para ensino de língua portuguesa ao primeiro ano, comecei a encher a minha cabeça de minhocas. Primeiro de tudo, porque parece insultar a capacidade cognitiva dos alunos e de reflexão do professor, segundo porque não enxerga o aluno como um produtor, um autor. Ela é um reprodutor de palavras.

Eu SEI que isso funciona em um número de situações. A defesa do material é que ele é “puxado” e oferece ao professor mais horas/aula de trabalho com os alunos. A coisa é que, com esse material, o aluno é compelido a ler. Numa abordagem fonético e de silabação.

Qual é o meu ponto com essa coisa toda? Bom, eu não acho que uma boa aula se vale pela quantidade do que é feito, mas pela qualidade de pensamento que uma criança pode criar, desenvolver. Materiais como esse não lidam com potencialidades. Lidam com produção. Que é importante, senador significativa.

Isso é coisa do ser humano. Se algo não significa nada, ele é “coisifcado” Numa coisa que pode ser deixada de lado. Que não tem valor. Aprender a ler e escrever, pensar sobre o que se escreve, escolher o que ler tem um tremendo valor.

Por fim, me mata a idéia de que os alunos são nivelados por baixo. Porque aquele que tem mais dificuldade vai sempre continuar ali, quando aquele que consegue ir mais além fica chateado. Surge a indisciplina, a tentativa de transgredir com o que nos entende por tolos.

Professores precisam ser mediadores entre o conhecimento existente e o que os alunos já sabem. E mesmo os que mais têm dificuldade podem ser levados a uma compreensão para o mundo que o cerca.

Aprender a ler não é apenas saber que B + A = A. A grande coisa é: o que se faz com esse BA? Quais possibilidades eles têm? Ler não é apenas compreender o código, mas dar significado a ele. Nivelando por baixo estaremos sempre dando baixos significados – se algum – para o instrumento mais poderoso: a leitura, a conjunção das palavras.

Pietra, que sabe que essa é uma opinião como tantas que existem, como tantas palavras em nosso idioma.

Um ano de raízes no chão

Quando eu me mudei de casa eu me sentia uma planta ressequida. Em parte, fui eu quem não me cuidei, mas levar uma batalha até o final extenua. E tudo que eu queria era poder estar segura em um lugar no qual eu pudesse aprofundar as minhas raízes e não precisar me preocupar com o que viesse em seguida. Estar segura. Como uma plantinha colocada em um vasinho novo, longe das ervas daninhas. Felizmente, eu consegui.

Mudar de casa é sempre um trabalho. Tanto pelas amarras, que podem parecer tão apertadas e sufocantes, que restamos quanto pelo movimento. Envolve muita energia física e mental. Limpar, embalar, cuidar, e ir, aos poucos, colocando tudo no lugar. Mas, há um ano atrás, eu consegui, ao final do dia, olhar em volta e dizer: este jardim está cheio de mudinhas: do jeitinho que eu queria.

Talvez naquele primeiro dia eu tenha ficado como os meus gatos. Meio assustada, sem saber mt bem para onde ir e o que olhar. Andei cômodo por cômodo da nova casa, pensando “nossa, tudo isso é para mim. Para mim e para os meus bichos. Aqui, ninguém mais vai nos incomodar. Será nosso forte.” Então, deitei e descansei. Pela primeira vez em um ano e meio.

Hoje a casa é um bosque jovem. Tem mais elementos, mais bancos, mais risos, mais de tudo que se pode aproveitar. A casa tem prazer, tem amor. E as minhas raízes estão firmes.

Hoje, eu posso deitar com calma. Continuar a regar a beleza de casa. E pensar que tudo que se foi aconteceu em uma outra vida, que não existe mais.

Bom, bora ir ao mercado, lavar a roupa, cuidar dos bichos… =)

Migrar… Mover-se

O nosso Memorial do Imigrante foi reaberto mês passado – junho 2014 – depois de alguns anos de reforma. E foi com um orgulho imenso que fomos visitá-lo.

Eu já tinha ido até lá em diversas ocasiões, pois é mais uma chance de viver um pouquinho de um passado que levou minha família a ser o que é hoje.

O espaço está cuidado, continua lindo e a parte educacional e expositora foram mexidas de forma que não deixa nada a dever à Pinacoteca, por exemplo. Vale muito a pena. Na mostra permanente encontram-se objetos, cartas, filmes, depoimentos. História. Movimentos humanos que fluem para que possamos entender um pouco de como o mundo que vivemos aqui no Brasil hoje se desenrolaram. A minha parte favorita disso tudo foram as cartas. Os registros das conversas entre as famílias. De quem chegou e contava como e o que acontecia. De quem chamava seus familiares a migrar e, quem sabe, viverem aqui uma vida melhor.

O fato é que nenhuma das histórias que eu ouvi ou li sobre esses movimentos nunca começaram bem. Quero dizer, ninguém saiu de sua terra natal por alegria ou aventura pela mera vontade de aventurar-se. São histórias de guerra, de miséria, de uma tentativa de fazer uma vida melhor do que se dava na época. Com a minha família foi assim, e com tantas outras.

Sem dúvida, que ninguém encontrou vida fácil aqui. Mas penso que, não ter de se preocupar com soldados invadindo propriedades, violência, fome, a vontade de fazer acontecer sobrepujou as outras dificuldades: língua, cultura, condições de trabalho.

Ainda assim, imagino o que foi olhar para aquele porto (Kobe, Gênova, Lisboa) e aquele mar imeeeeenso com suas possibilidades como o próprio: indecifrável, profundo, misterioso. O mar e o correr nele fizeram com que pessoas novas nascessem. A vida vem da água.

Para mim, uma paisagem se desfralda a medida com que eu chego em um novo lugar. Como se fosse construindo-se a medida com que cada passo e cada olhar é dado. E com ela, todas as suas maravilhas e curiosidades, seus assombros. Imagino essas pessoas que viram oceano e mais oceano se abrirem em terra. Depois em trilhos… e por fim, em rotina…

Quanto tempo será que foi de transição? De suspensão de uma vida? De luto e de renascimento? O quanto daquelas tantas pessoas modificou-se? Quais foram seus conflitos: enraizar-se? Renegar a nova língua? O fato é que, depois de nascerem do mar, a terra os abraçou. As pessoas que viveram como “escravos pagos” então fizeram suas famílias e hoje estamos aqui, conversando pela tela de um computador. Falando sobre esse passado que vive nas fotos, nas cartas, nos relatos orais.

Se eles não tivessem pego aqueles navios, subido naquele trem, estado na Hospedaria dos Imigrantes, certamente hoje eu não seria uma parte do que eu sou.

“Aqui, vamos ver nossos filhos e nossos netos crescerem”. Como as plantas que cultivaram, crescemos e florescemos mezzo italiani, meio brasileiros. E agradecida. Pelas ondas do mar que, até hoje, nos permitem formar novas famílias.

Sobre o Museu da Imigração: entrada gratuita em junho e julho de 2014. Festa do Imigrante a partir do dia 20/7 até dia 27 – sábados e domingos.

Passeio de maria-fumaça e história funicular: organizado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária. Sábados, domingos e feriados. Confira!

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