O tal caminho do meio

  
Quem me conhece um pouco, sabe que eu tenho uma religiosidade um tanto alternativa. Quem não, sabe agora. E, felizmente, deixar sua espiritualidade voar por nuvens incomuns, permite que as asas toquem alguns caminhos com ditos interessantes. No Budismo, encontro a ideia de andar pelo caminho do meio. Que é, em outras palavras, o que está escrito em Delfos: Nada em excesso. 

Houve tempos nos quais isso foi uma máxima na minha vida. Depois de outros, nem tanto. Porém, sem querer -querendo- isso pipocou na minha cabeça de novo. E por quê não?

Muito bem. Faz um mês que é exatamente essa pequena frase que tem guiado meus passos, pensamentos e fazeres: nada em excesso

Claro que em momentos de suma humanidade, ela acaba se esvanecendo. Mas, não sumindo. E é preciso dizer que ando mais feliz seguindo por esse riacho divisor de terras. 

Viver com esse pano de fundo talvez me tranquilize um pouco. Faz uma reação virar uma ação ou um pensamento. Ou a passividade, no auge da emoção, tornar-se um movimento. 

Sinto minha cabeça mais leve. Para o que eu preciso fazer e o que pode ser feito daqui a pouco, para encerrar a pilha. 

Mas, talvez o mais importante do caminho do meio, ou seja, a falta de excessos, seja do que seja, permite uma reflexão mais apurada da realidade e dos sentimentos. 

Nada em excesso deixa mais livre para uma atitude mais virtuosa. E é claro que os desfalques acontecem. Seja de emoção ou de ação. No entanto, libera espaço para uma avaliação honesta do tempo e quiçá, uma reprogramação de curso. 

Talvez nada em excesso seja meu caminho natural de fluir. Água derrama sobre a terra, eu sei. Mas tende a voltar para seu leito. 

O que eu sei hoje é que olhar para o espelho e me reconhecer fica menos espinhoso. 

E vc, amigo leitor, tem uma máxima que te guia… Conta. Isso ajuda inspirar outros a viver mais levemente. 

Pietra

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Viver as nossas fantasias

Quando eu era pequena, talvez pela dose de desenhos que eram oferecidos, séries e coisas assim – estávamos saindo dos anos 70 – eu era louca por super-heróis. Inclusive, aos 3 anos, minha mãe fez a minha festa de Liga da Justiça. Era para ser só da Mulher Maravilha, mas o que poderíamos achar no Palácio dos Enfeites naquele tempo? Bem… o fato é que eu me recordo de estar no tanque de areia da pré-escola girando, achando que ia me tornar a Mulher Maravilha. Outras vezes, eu escalava os brinquedos, querendo ser a Mulher Aranha (Jessica Drew) e achava bem bacana ver a Poderosa Isis na TV. Minha mãe chegou a fazer tiaras de Mulher Maravilha e havia em casa uma lancheira da mesma personagem. E tudo parecia muito legal.

Porém, eu tinha um guilty pleasure. Meu sonho de consumo era ser a Mulher Gato. Eu sempre tive gatos… eu amo gatos… No entanto, eu me sentia vendida ao maniqueísmo infantil que prega que o que é bom é bom e o que é mau é mau e ponto final. Você, crescendo, claramente quer ser do bem e assim, aceita e virtuosa. Claro que eu imagino que outras pessoas podem ter tido infâncias ou sentimentos diferentes. Poucas vezes, as crianças se deixam levar por essa vontade de explorar o “outro lado” e tornam-se vilões das histórias que tanto gostam. Mesmo porque, se formos olhar com cuidado, o que é colocado como “mau” nas histórias para crianças, realmente é mau sem um motivo… simplesmente pelo “bom” ter seu contraponto e quiçá um razão de ser.

Muito bem. O tempo passa, ainda bem. E as coisas na vida e nas histórias acabam ganhando nuances e motivos. Depois de muitos anos vim a entender que a Mulher Gato, por exemplo, que eu amava tanto quando criança, não necessariamente era uma pessoa ruim. Ou má. Ou até vilã.

A maturidade é uma coisa muito bacana porque ela permite que percebamos a complexidade das coisas e das pessoas e encontremos nelas as mesmas que estão dentro de nós. Assim, é muito comum hoje, ver as pessoas de mais de trinta com suas fantasias, em festas ou encontros, de personagens que, quando crianças, eram impensáveis.

Bem… ontem foi a minha vez. Depois de 36 anos procurando uma brecha, eu consegui ser a Selina Kyle. Ajeitei de uma forma bem “Faça você mesma” a fantasia e fui a festa de uma amiga. E preciso dizer: que delícia foi aquilo.

  
Entrar na pele de algo que te representa, talvez seja uma das brincadeiras que ainda valem aos adultos, uma vez que não mais brincamos de bonecas… Claro que temos nossos jogos, nossos encontros virtuais… mesmo nossas representações entre 4 paredes. Talvez seja uma necessidade humana. Utilizar-se dessas representações. Sem dúvida, elas são esteriótipos e como já mencionei aqui uma vez, os esteriótipos não são errados, eles são incompletos. 

Mas, ainda precisamos dessas figuras de cores saturadas para podermos entender um pouco melhor o que acontece conosco e como podemos lidar melhor com o mundo que nos cerca. Brincar, representar é como ler… é uma chance ótima de fazer uma catarse. De viver ou sentir algo que não nos é posto no dia a dia.

Não que eu queira sair por aí arrombando cofres ou levando peças de museu para casa – ou me apaixonando por um morcego. No entanto, ser uma pessoa que se veste e se move como um gato talvez seja a minha chance de mudar de forma e ser esses bichos que eu amo tanto e que representam beleza para mim.

Pode ser sim, uma questão entender-se e ser internamente aceita. Pode ser mais um pedaço daquelas buscas pessoais de autoafirmação e consciência. Se for, pelo menos que seja lúdica.

Miau!

Pietra

Foco, força e fé

É mais uma daquelas pequenas frases destinadas a serem meme de internet ou conselho de ajuda… Enfim, talvez uma coisa inspiracional. Mas, eu vim hoje pensando o quanto isso pode atrapalhar outras coisas também. Vamos de bruxa má que não gosta de empregar “gratidão” no discurso. O mesmo para esse FFF. 

  
Claro que eu sei que se andarmos por aí, de um jeito disperso ou despreocupado, poucas coisas se organizam. Eu sei tb que se sairmos desistindo de qualquer rusga ou dificuldade, poucas coisas se concretizam. Por fim, sei que guiar-se por algo intangível ajuda a dar pé quando o físico não dá mais conta. Tudo isso ok. 

Mas…

Eu ando pensando ultimamente o quanto isso tudo não corre o risco de ser exagerado em nossos tempos de posts bonitinhos de internet – como este, neste blog. Bem, será que não corremos uns riscos de perder a espontaneidade ou a chance de deixar a vida correr seu rumo? De deixar algumas coisas, talvez nem boas ou ruins, novas apareçam? Será que não estamos abrindo mão da criatividade para fazer acontecer?

Pode parecer tudo bobagem. Talvez seja mesmo. No entanto, essa coisa de foco pode, sem querer, acabar nos esvaziando. 

Focada nos “novos desafios” estou, acho, deixando de contar boas histórias. Deixei um parágrafo morrer dentro de mim hoje, porque estava “focada” demais no que eu tinha de fazer no trabalho. E agora estou um tanto chateada com isso. 

Eu sim acredito em disciplina e dinâmica para fazer as coisas acontecerem. Mas, tenho preocupações de que a falta de suavidade nesses tantos focos da vida, acabem por deixar a inspiração morrer em brancas nuvens. 

O mega foco da vida contemporânea pode deixar páginas vazias. Que medo disso. 

Pietra

Mudanças, transformações e adaptações

Oh, lance esquisito, esse de mudanças… Meu pai sempre diz que nos acostumamos muito facilmente com aquilo que é bom… logo, com o que está funcionando direito. OU ainda, com o que talvez não funcione direito – ou idealmente – mas, que seus esforços conseguiram captar uma forma de fazer acontecer. E com esses movimentos, vamos seguindo em frente e tocando a vida.

Porém, chega aquele momento no qual forças maiores – completamente fora do seu controle – atuam e você se vê frente a uma situação velha com uma jeito novo de lidar. E para lidar? Pode parecer mesmo que, em time que está ganhando não se mexe… mas, vamos supor que aí aparece o futebol chinês e delapida todo seu time? Eu não sou corinthiana, mas não pude deixar de me atentar ao que aconteceu com eles. Você vai, monta um time novo e joga o campeonato tentando ganhar.

Eu vinha pensando nessas transformações e mudanças que precisamos e fazemos na vida. Essas, por bem ou por mal, acontecem sob as nossas vistas e nossas mãos. No entanto, aquelas que não, acabam deixando um vazio e um certo sentimento de abandono frente àqueles que não mais estão lá, mas faziam a coisa acontecer.

Eu não sei. Ou sei e vivi um pouquinho para saber. Transformações e mudanças acontecem para que possamos evoluir e crescer. Acontece com as crianças. Está acontecendo agora, enquanto eles estão em fase de adaptação e tem de sair do regaço de casa para enfrentar a coletividade da escola. No entanto, com os trinta e tantos nas costas, ainda dá um sentimento de desamparo quando a “mãe” não está lá, validando o que você faz e o que você sabe.

Você é grande. Vai lidar com isso. E isso sempre. Mas, aí… o void que isso causa.

Talvez essas grandes pausas, como o Carnaval, aconteçam exatamente por causa disso. Para pararmos e vermos onde é que a poeira está se escondendo nos cantos e poder ter um plano… um novo plano, com uma vassoura sempre a mão.

  
Estou lendo “A Jangada de pedra” do José Saramago. Ainda nem cheguei na metade… mas, a premissa da história é que a península ibérica se separa da Europa e passa a vagar pelo mar. Muita gente parece incrédula. Muita gente entra em pânico e os dias lusoespanhóis mudam completamente. Não sem sinais, é claro. Como lidar com a sua terra como um imenso barco solto no oceano?

É dado e é vivido que mudanças são boas… aprendemos essa lição milhares de vezes… Como sabemos que sempre há um time chinês para comprar seus jogadores. Onde estão as sombras que nos mostram exatamente o lugar no qual nossas teias de aranha residem? E por que nem sempre queremos tirar elas de lá?

Que o Carnaval seja a nossa catarse e voltemos mais inteiros e mais limpos.

Pietra