Nivelar por baixo é dar oportunidade igual?

Vendo a revisão de um material didático para o primeiro ano do Ensino Fundamental 1 destinado à escolas públicas, passei por uns momentos de choque e de reflexão.

Na educação existem muitas formas de entender o processo e, com isso, muitas outras tantas de aplicar o ensino de forma com que ele se dê e o aluno aprenda alguma coisa. Educação é um estudo e isso pressupõe que correntes sejam contrárias, até contraditórias. Envolve filosofia, como o professor se relaciona com aquilo que ensina, quais estratégias conhece, como aprendeu: o que pode gerar embates homéricos entre linhas de trabalho.

Sem dúvida, o tempo histórico, o local, a cultura e o pensamento de um povo influenciam na forma com que as crianças ou alunos são entendidos e na forma com que se trabalha com eles. Para mostrar isso estão aí as idéias do Paulo Freire, da Maria Montessori, da pedagogia Waldorf. E uma coisa é certa: se quem trabalha com essas linhas – e não métodos – não acredita nelas, elas valem nada.

Uma forma de trabalhar que é muito corrente e alvo de críticas é o tal do “ensino tradicional”, conteudista e classificatório. O cume dele, na minha opinião, são testes como os vestibulares. A questão de absorver e reproduzir o máximo de conteúdos, conceitos, fórmulas e afins geram pessoas que têm muitas informações e que, não necessariamente, conseguem fazer relações entre essas coisas todas. Além de uma competição brusca: quem sabe mais, pode mais, vai mais além.

Toda vez que falamos de educação tem tanta coisa envolvida que não se limita ao fato de ter um conteúdo, um professor e um aluno. A sala de aula fala, os livros, textos didáticos influeciam, a postura do professor é determinante. Na educação, tudo significa alguma coisa. Tudo que o professor faz demonstra a sua filosofia sobre ensinar e aprender.

Dito isso tudo, ao observar a feitura daquele material didático para ensino de língua portuguesa ao primeiro ano, comecei a encher a minha cabeça de minhocas. Primeiro de tudo, porque parece insultar a capacidade cognitiva dos alunos e de reflexão do professor, segundo porque não enxerga o aluno como um produtor, um autor. Ela é um reprodutor de palavras.

Eu SEI que isso funciona em um número de situações. A defesa do material é que ele é “puxado” e oferece ao professor mais horas/aula de trabalho com os alunos. A coisa é que, com esse material, o aluno é compelido a ler. Numa abordagem fonético e de silabação.

Qual é o meu ponto com essa coisa toda? Bom, eu não acho que uma boa aula se vale pela quantidade do que é feito, mas pela qualidade de pensamento que uma criança pode criar, desenvolver. Materiais como esse não lidam com potencialidades. Lidam com produção. Que é importante, senador significativa.

Isso é coisa do ser humano. Se algo não significa nada, ele é “coisifcado” Numa coisa que pode ser deixada de lado. Que não tem valor. Aprender a ler e escrever, pensar sobre o que se escreve, escolher o que ler tem um tremendo valor.

Por fim, me mata a idéia de que os alunos são nivelados por baixo. Porque aquele que tem mais dificuldade vai sempre continuar ali, quando aquele que consegue ir mais além fica chateado. Surge a indisciplina, a tentativa de transgredir com o que nos entende por tolos.

Professores precisam ser mediadores entre o conhecimento existente e o que os alunos já sabem. E mesmo os que mais têm dificuldade podem ser levados a uma compreensão para o mundo que o cerca.

Aprender a ler não é apenas saber que B + A = A. A grande coisa é: o que se faz com esse BA? Quais possibilidades eles têm? Ler não é apenas compreender o código, mas dar significado a ele. Nivelando por baixo estaremos sempre dando baixos significados – se algum – para o instrumento mais poderoso: a leitura, a conjunção das palavras.

Pietra, que sabe que essa é uma opinião como tantas que existem, como tantas palavras em nosso idioma.

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