E o lance do nome dos esmaltes, gente?

Essa semana, nos encheu as time lines do Facebook o lance dos nomes dos esmaltes da nova coleção da Risqué “Homens que amamos”. Eram coisas como “Fulano fez o jantar” ou “Cicrano disse eu te amo”. Eu não sei exatamente que fim levou o Robin, mas fiquei pensando: quantos nomes bobos de esmalte não tem por aí? Mais que isso ainda, será que esses nomes ou essas relações estão mesmo relacionadas com aquilo que as mulheres querem, gostam etc etc etc… talvez um problema seja efetivamente se o nome fosse “João bate na mulher” num lindo esmalte roxo ou “Bill trai a esposa com 5” num verde super moderno ou ainda, “Nestor desvia dinheiro da estatal”, num branco limpo e imaculado.

Será mesmo que isso faz tanta diferença? Quantos esmaltes que achamos lindos, mas com nomes bobos ou sem sentido não usamos? Boicote? Talvez, o que eu não tenho certeza que vai fazer uma marca mudar o nome dos tons ou recolher o que já está no mercado.

Pior ficamos quando vemos mulheres dizendo, em comerciais que o melhor jeito de dizer algo ao marido é de lingerie… ou que os bebedouros deveriam ter 60cm de altura… ou o quanto somos gordas, enrugadas, fora de forma e toda forma de inadequação…

Na minha honesta opinião, não devemos consumir o que não achamos adequados. Se determinadas coisas existem é porque: 1 – tem quem consuma; 2 – tem uma industria imensa por trás; 3 – tem quem nem pensa sobre isso; 4 – tem absolutamente quem não liga. Se vc liga, tome as suas providências: escreva para o fabricante, converse com as pessoas, mas absolutamente compreenda que nem todos andam em nossos sapatos. Deveriam? Talvez… afinal, a melhor forma de compreender as pessoas é andando duas luas com seus mocassins – To Kill a Mockingbird. Penso que a melhor forma de lidar com as coisas seja cuidando delas, primeiramente, em nosso próprio jardim, em nossa casa, na nossa estante.

Por fim, fica a sugestão da linda coleção da Pharmácias Granado, Conhecendo as Escritoras:

Infelizmente, Virginia Woolf se esgotou na loja virtual – todas choram.

A questão é que se formos fazer uma fala para a sociedade, é importante que a sustentemos… E que nossas atitudes sejam coerentes. Eu não comprei nenhum dos esmaltes da coleção nova da Risqué. Não me interessou. Teria comprado o Virginia Woolf da Granado. Adoro quando o B. diz “eu te amo” ou “faz o jantar”. Amo ler os livros de Virginia. Adoro escrever com as unhas feitas… e deixar meia dúzia de reflexões pessoais no ar… Simples assim.

Pietra, que ama a cor “Marshmallow de Alfazema” e pensa WTF quanto ao nome…

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To kill a mockingbird, de Harper Lee

ou “O sol nasceu para todos”, na tradução para o português. Facilmente um dos meus livros favoritos, afinal de contas, é impossível ter um só.

Foi o único escrito por Harper Lee, amiga de Truman Capote e ganhou um prêmio Pulitzer. Brevemente, teremos sua continuação – julho de 2015.

É um livro que foi publicado há 50 anos atrás, falando de uma sociedade de 80 anos atrás, na qual a bondade ou a maldade das pessoas era meramente aprendida por meio daquilo que se aprendia ou do que era socialmente aceitável. Engraçado… parece hoje. Certamente, no nosso cotidiano daquilo que é politicamente correto, muitas dessas coisas acabam ficando em subtextos das falas e das atitudes que as pessoas têm – ainda têm. Infelizmente, as nossas mazelas colonialistas ainda nos perseguem e se tornaram esqueletos imensos no armário. De tudo, é bom saber que existe aqueles que percebem a irracionalidade dos argumentos e instintivamente os renegam com reações até orgânicas.

Mas, a história contada pela menina Jean Louise Finch, ou Scout, também fala de amor, de cuidado e de apreciação pelo que é feito e de um respeito imenso pelas pessoas que a cercam e mostram os sentidos que a vida pode ter. É curioso ver a percepção de uma criança sobre o que poderia hoje mesmo sair facilmente no Cidade Alerta ou no Aqui, Agora como um crime conta a mulher… e que não foi. E o quanto o status-quo pode influenciar e, ao crescer percebendo isso, quão pessoas melhores podemos ser?

“As crianças são inocentes”, muita gente gosta de acreditar. Não são. Elas têm uma forma bastante particular de perceber o mundo que as cercam. Sem dúvidas, não notam determinadas sutilezas criadas pelos adultos e disso muitas das perguntas “cabeludas” que as crianças fazem embaraçam quem as cercam. A questão é que, se as perguntas dos pequenos não forem respondidas – e claramente existe todo um cuidado, não para poupá-las do que é sórdido no mundo, mas para que caiba em seu mundo ainda não desvelado – podem tornar-se monstros imensos dentro de suas cabeças. Crianças querem saber por que algumas outras crianças são marrons… por que algumas outras não tem papai e mamãe… como foi que o irmão foi parar na barriga da mamãe… por que o céu é azul… de onde vem o arco-íris… onde mora o papai-noel.

As crianças são pessoas. Não pequenos adultos. São sim vulneráveis a uma porção de coisas que podem deixar um adulto fora de seu prumo. No entanto, é o seu entendimento, dentro daquilo que sabem, conhecem, entendem e percebem que faz com que suas conclusões se formem… até que, quando amadurecem – porque, eu imagino, uma parte de nós não deixa de ser criança, ou jovem, ou ainda, parte de uma imagem de nós mesmos que temos há um determinado tempo de nossa existência – passam a compreender melhor.

Nossos contratos sociais de máscaras e pensamentos socialmente aceitáveis estão correndo o tempo todo. E quem nos dera ser como Atticus Finch, pai da Scout, que era o mesmo homem na rua e no escritório de advocacia. Foi o mesmo homem que sabia atirar, o fez quando precisou, mas nunca, sequer precisou ter ou saber de seus filhos de uma arma de fogo em sua casa.

Quem nos dera poder olhar para um sabiá e saber que ele é um pássaro que não prejudica em nada o ser humano. Tudo que ele faz é cantar a beleza que está dentro de si. Por isso, é pecado matar um sabiá (a mockingbird).

Quando deles não estilhaçamos ignorando o bom coração de quem se preocupa sem interesse, de quem nos quer bem, de quem tem a verdadeira intenção de esticar a mão a quem precisa?

Esse é uma daquelas obras que os norte-americanos são obrigados a ler na oitava série e passam a odiar. Ela é extensa, tem algumas palavras estranhas e talvez se relacione pouco com os interesses de quem tem 14, 15 anos. Acaba se tornando um livro desgostado e deixado de lado depois que se faz a prova ou o relatório sobre ele… como muitos livros que são de “leitura obrigatória” em nossas escolas, exigidos por um currículo engessado ou cuidado por professores com 30 alunos na sala de aulas e com 40 horas/aula por semana. É assim, infelizmente, que as obras primas se perdem… ou se banalizam.

Leitura é uma arma poderosa de entendimento do mundo. De viver outras vidas e de entender outros ou os nossos contextos. Não pode ser maltratada pela imaturidade dos seus leitores. Ah, sim, é um dos livros banidos em escolas e bibliotecas dos EUA, por linguagem ou porque mostra questões de racismo muito claras. Ah… adoro esses livros… sempre têm algo para provocar alguém. Como dizia José (Saramago) que também teve livros banidos (meu herói, meu marginal): escrever para desassossegar! Sejamos eternos incomodados… o que será que desejam nos esconder como crianças que somos lá dentro?

Pietra, lendo livros banidos…

A capa do meu pocket book

Chatos são os outros… ou será?

Hoje na fisioterapia – que parece que tira a sua dor com a mão, literalmente – estava eu mergulhada no meu Kindle. Afinal, o que mais há de se fazer quando se toma choques diretamente no nervo doente? Bem, estava eu lá lendo um livro sobre crítica literária na Literatura Infantil (hein?) quando o chato começa a querer puxar assunto com a geral. “Onde você trabalha?”, “Você não vai acreditar por que eu estou aqui”, “Você tem isso? Nossa, eu já tive. Horrível. Aliás, foi uma das coisas que eu tive, melhor perguntar o que eu não tive” e por aí foi. Sinceramente, às sete da noite, eu não tinha coragem de tirar o Kindle da cara nem pra fazer bico ou torcer no nariz, senão capaz de sobrar pra mim.

Foi quando eu me peguei pensando numa das passagens do maravilhoso “To Kill a Mokingbird”, da impecável Harper Lee… Em um momento, o pai, Atticus Finch diz aos seus filhos que para entender melhor as pessoas precisamos dar a volta nelas e estar em seu lugar para ganhar um pouco da sua perspectiva. O que me lembra, inclusive, que preciso fazer um posting sobre o que eu venho aprendendo com esse livro, mas enfim… mais tarde. Preciso voltar ao chato e sua chatice.

Na verdade, fiquei ali pensando em como poderia dar a volta naquela pessoa e perceber o que estava acontecendo. O que será que levava uma pessoa a querer puxar papo com todo mundo, querendo elas conversar ou não. E não sei bem precisar o que exatamente passa na cabeça dela, se é uma questão pessoal de achar que tem o dom da palavra e consegue desenvolver conversa com todos ao seu redor ou se era meramente para passar o tempo, ou mesmo uma certa carência, aquela necessidade básica de atenção. O fato é que, para aquela pessoa, a chata devia ser eu.

Imagino que uma pessoa assim deve pensar que eu, ali, deveria estar evitando – o que de verdade estava – porque sou dessas antipáticas, que não gosta de socializar. Que não conversa ou que não liga para as outras pessoas. Pode até ser. E entendo que cada um tem o seu momento ou, mais amplamente, seu jeito de ser.

O que me parece, muitas vezes, é que “o chato” é aquele que vai um tanto contra aquilo que a gente pensa, faz ou acredita. E que talvez que insista nisso. Temos todos visto isso imensamente no Facebook esses dias. Discussões imensas e até improfícuas sobre política e suas filosofias. Quantas vezes, vendo um posting de uma outra pessoa que vai diferentemente daquilo que pensamos, fazemos e acreditamos, taxamos de chato, bloqueados ou damos o elegante “unfollow”.

Penso que a coisa do chato é a insistência. E fico refletindo aqui o quanto será que os postings desse blog podem ser chatos aos olhos de outros: lá vem essa pseudo-intelectual (eeeeuuuuuu?) falar sobre literatura e os livros maravilhosos (#sqn) que ela lê. E ela insiste e aparece no feed de tantas pessoas. Pode ser que seja isso mesmo, afinal de contas, os postings sobre livros rendem bem menos que os que falam sobre as relações humanas – e se for “bapho” mais ainda.

Não sei. O que eu sei é que vou pensar numa outra abordagem menos “chata” (?) de falar sobre os livros… também sabendo que lê quem quer…

Que coisa chata essa de ficar querer puxando papo, né?

Pietra

A mãe e a professora na Ed. Infantil

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Cenas da vida real de uma professora de Ed. Infantil

Partindo de um pressuposto simples: a mãe cria e educa. A professora ensina e forma. E essas duas tarefas se perpassam  o tempo todo na Educação Infantil. Longe de mim fazer um senso de julgamento de quem é mais importante ou quem tem mais razão ou quem conhece melhor uma criança. Cada uma dessas pessoas, juntamente com colegas, familiares e os outros tantos adultos fazem parte da vida da criança… em momentos diferentes. Com papeis diversos.

O que eu gosto de pensar é que nós, professoras, estamos juntas com as mães numa tarefa grandiosa: levar a criança para  o mundo. Aquele, bem grande, bem aberto. Cheio de tudo que já sabemos que tem nele. Claro que vamos colocar os nossos filtros e saber dosar o que é adequado para a idade da criança. Mas estamos lá, ombro a ombro, mãe e professora, para mostrar aos pequenos o que tem do lado de fora da sala.

Muitas vezes ouvi que uma condição si ne qua non para entender e lidar bem com as crianças era ser mãe. Ainda não sou. No entanto, penso que 16 anos de carreira na Educação me qualificam para entender um pouco do que acontece e como acontecem as crianças. Além disso, existe toda a parte técnica, didática e “de tarimba” que vem com o diploma e com a prática. Sim, boas professoras têm de ser necessariamente formadas e sempre de olho no que acontece por aí para fazer do seu fazer mais criativo, feliz e produtivo.

As mães e as professoras conhecem e lidam com crianças em números e momentos diferentes. Há coisas que uma sabe ou vê que a outra nem imagina. E isso é muito rico, pois o universo que uma criança representa é vasto e cheio de descoberta e de práticas que constróem seu pensar, seu caráter e aquilo que serão em pouco tempo. Assim, como é vital que as mães e as professoras se encontrem de tanto em quando para conversarem, trocarem ideias e experiências para ajudarem aquele pequeno ser a tornar-se pessoa.

Assim, meu convite aqui é que sempre que a professora do seu filho pequeno convidar para um bate-papo, não pense necessariamente que aconteceu alguma coisa ruim ou que ela tem um relato horrendo a fazer de como seu filho (a) se comporta mal etc e tal. Esse tempo já passou. As conversas são para entender e parear fazeres e práticas, para ajudar seu filho a fortalecer-se frente a uma situação, para trocar olhares, para conhecê-lo melhor e assim, atuar melhor. A professora pode perceber coisas que a família não e vice-versa. “Precisamos conversar” não pode ser uma frase imbuída de peso, mas sim de consequências ou de sequências de atitudes.

Quantas coisas bacanas será que a professora do seu filho, sua filha não tem para te contar ou para te mostrar? Ligue para a escola e agende uma conversa. Tenho certeza que você vai se surpreender =)

Pietra, que morre de orgulho dos muitos pequenos com quem vive todos os dias

“O bebê de Rosemary”, Ira Levin e as mulheres negociadas

Mais um que foi pra conta… esse no reader.

Imagem do site “A estante do Visconde” – vale ler a resenha tb!

Li o original – gosto de sentir a linguagem do autor em sua língua nativa, quando eu dou conta dela… Gostei. De muito, quem viu o filme, basicamente, leu o livro. O final tem um toque diferente… mas podemos falar sobre isso nos comentários, afinal de contas, é chato posting com spoiler. Pessoalmente, gostei do final do livro, porque revela bastante da natureza da própria Rosemary (e fico pensando de muitas pessoas que se dizem tão grandes em sua espiritualidade e enfrentam o que ela enfrenta).

O que chama muito atenção no livro é a relação entre Rosemary e Guy, seu marido. Além de topar a “troca” de fama pelo bebê e pela sanidade de sua esposa. Penso que o que Guy faz, não literalmente, mas bem figurativamente, é muito próximo do que muitos homens fazem em seus relacionamentos. Além de ser um sujeito distante e egocêntrico, ele abusa de Rosemary. Nunca fisicamente. Mas, quantos dos abusos que acontecem são necessariamente físicos? Nem todos os homens descem ao nível físico… mas, fazem mal às suas companheiras. Cuidam mal, pouco ligam. Quantos e quantos homens não mantém um relacionamento pela “fachada”? Alguns podem dizer que é culpa dela. Que não saiu. Que anuiu. Talvez… mas, é preciso culpar a vítima? Em momentos turbulentos, quantas pessoas (nem homens, nem mulheres) percebem-se presos em relacionamentos sem saída? Penso que algumas pessoas são tão tóxicas para outras que envenenam de tal forma que o outro mal e mal consegue respirar… A dor que Rosemary sentia era em seu corpo. No entanto, penso o quanto dela não era um reflexo do labirinto que ela se meteu/ foi metida quando se mudou para o Bramford.

O que se dá com o bebê foi o resultado. O final de uma trama que foi feita sem que ela tivesse qualquer consciência ou conhecimento. Quanto disso não acontece todos os dias? Quantas pessoas não são engendradas nos esquemas alheios? Pela vaidade ou pelo orgulho? Quanto de atenção temos de ter em relação a quem está à nossa volta?

Rosemary é uma das tantas mulheres que, tentando viver um sonho, uma vontade que é empregada pelo meio social – ser mãe, ser uma boa mãe, acabou sendo tomada por uma situação muito maior que si mesma. E muito longe do que acreditava ser o ideal. Talvez o ideal não exista, mas será que não pode ser minimamente dentro de nossas possibilidades de conhecimento e entendimento? De lida com o momento?

De uma leitura completa no Kindle, posso dizer que gostei muito. Além de ser extremamente confortável para ler – é leve, tem um tamanho bastante adequado para as mãos, a luz para os olhos é bem gostosa para acompanhar a leitura; o reader também oferece bons recursos como poder fazer alguns compartilhamentos em redes sociais como o Facebook e o GoodReads. Ah, e duas coisas que amei: o dicionário online: vc marca a palavra e o significado vem na tela… e o acesso à Wikipedia para fazer mais pesquisas sobre um assunto, personagens, etc… recomendo bastante. Mesmo porque, os livros em papel, eu sempre leio com o iphone do lado. Tanto para busca de palavras, quanto para essas pesquisas. Quem tiver oportunidade, vale a pena experimentar.

Para a próxima leitura, ainda estou em dúvida. Mas vai ser em papel. Quero liquidar meus livros físicos para poder me encher de livros online… ai, minha santa Wish List, que já tem Roberto DaMatta e Bret Easton Ellis…

Pietra

Relato de um processo de criação

O posting do blog “Morar com a Morte” rendeu uns acessos bons e ótimos comentários, principalmente no Facebook. E isso acabou me inspirando. O B. também gostou bastante do texto e da reflexão e acabou me sugerindo algumas cenas, daquele jeito imagético que só ele sabe fazer. Sentei-me ao computador semana passada para começar a fazer de um texto mais reflexivo em um pequeno conto. Assim que eu puder, compartilho, prometo =) Parte 1.

Li “Alabardas, Alabardas”, e nele algumas anotação de como José começou a pensar a escrita do romance. Achei muito interessante essa parte anotada do processo. De quem serão as personagens, um possível final. E ainda: como transformar uma ideia em uma trama. Talvez essa seja a parte mais complicada. Ainda, nesse livro, pensei na formação dos nomes das personagens. Artur Paz Semedo trabalha numa indústria de armas, tem nome de general, paz – auto explicativo – e sem medo… um homem que não ligava para o que sua função fazia e gostava de filmes de guerra. Sua ex-esposa, Felícia, pacifista… feliz (?) e tentando abrir os olhos que quem está ao seu lado.

Pensando em tudo isso, comecei a fazer as minhas pesquisas, tanto sobre o caso da mulher emparedada… não queria que fosse a vítima do caso exatamente, pois a minha questão não foi exatamente com o que levou ao ocorrido, mas o ocorrido em si… Então, para desenhar essa história, dessa mulher presa falasse com o emparedador, corri a algo que eu conheço bem (modéstia a parte): o tarot.

De um processo de criação...
De um processo de criação…

Primeiramente, fui a um dicionário de nomes… para que fossem tão alegóricos quanto a história que querem contar. Henrique, o senhor da casa e Jacinta, ai de mim, nasceram. Seus sobrenomes também tiveram esse cuidado.

Em seguida, cartas. No tarot temos todas as situações da vida. Soltas em cartas. Então, por que não junto-las e entender quem podem ser aquelas pessoas que subirão ao seu palco de folhas em branco? Perguntei ao tarot, quem eram aquelas pessoas, o que pensavam… Fiz uma leitura conhecida como “Templo de Afrodite” para entender seu relacionamento. Estou ainda colocando um “pequeno” motivo que pode despertar o Diabo do cimento. O que pode fazer uma pessoa comum tornar-se um monstro? Foi como eu vi no livro do Neil Gaiman, os monstros também têm medo… são amedrontados… como o Diabo é confuso.

Por fim, venho descoberto que a criação não é um processo solitário e isolado. Li os dois textos de agradecimentos dos últimos livros: “Dr. Sleep” e “The Ocean by the End of the Lane”. Ambos mencionando muitos nomes de pessoas que agregaram ao processo. Não tem jeito. Acho que pouco se faz sozinho… As outras pessoas são sempre as outras perspectivas.

Ainda, fico pensando na ideia de que muitos escritores contam de que suas histórias e suas personagens ganham uma determinada vida dentro de suas histórias… que chega uma hora que o escritor pouco controla. Não sei se ainda cheguei lá.

O que eu tenho aqui dentro é que a escrita sobre a escrita é um passo muito importante. Deixar as trilhas e ter uma gênese. Acompanhar como quase uma história de vida.

O conto da mulher na parede ainda está em seu começo. Jacinta e Henrique mal e mal começaram seu romance. Ela vive para todos os dias, como manda uma sociedade e uma cultura de massa… ele tenta crescer na vida e desafia uma morte. Mas, como é possível, uma vez que todos perecem? A morte que vem da vida, e a morte que é impulsionada pelas mãos dos vivos. E, embora, saibamos como isso vai terminar, são muitas letras que levam até lá e precisam ser deitadas no papel.

Palavras alimentam histórias. Histórias alimentam histórias. Histórias alimentam as pessoas que talvez tentem entender como as pessoas funcionam. Um poço bem fundo.

Pietra

O oceano no fim do caminho, Neil Gaiman

Praticamente lido em uma semana… com um José Saramago no meio do caminho, hihihi

Mais um vindo da Strand Books que foi para a prateleira. Só faltam 2…

Bom, falar de Neil Gaiman é meio que chover no molhado. Quem gosta, ama… quem não, talvez não tenha lido. É um tipo de literatura – sim, são todos pequenas obras de arte, joias lindas em papel – que te toma e te faz pensar, se colocar, se identificar. Aliás, já digo de cara que, para quem está afim de lidar com espíritos, deuses e histórias que não são necessariamente de “bem e mal”, um convite. Penso que não tem como os pagãos, por exemplo, não se prenderem.

the ocean

“The Ocean by the End of the Lane”, foi lançado em 2013 e lembro que foi um furor. Não li na época, mas logo coloquei na minha lista dos que traria na mala. E não tem como se arrepender. Na verdade, desde “American Gods”, eu venho me prometendo a pegar o Gaiman de novo. Teve a “Morte”, que me encantou pela sua leveza e pelos diálogos lindos e entendimento sutil dessa “estada”.

Por fim, lendo “TO@TOL”, eu percebi que, de fato, pouco somos adultos. Claro que somos pelo que fazemos na vida, pelo que a vida nos pede, pelas responsabilidades que tomamos. O que eu acho saudável. O que eu quero dizer é que eu penso que é muito importante tomarmos conta de nossa própria vida e não depender de “um poder superior” dos nossos pais ou responsáveis para fazer o que temos vontade, ou o que precisamos fazer. No entanto, se as fantasias, os pensamentos e o acreditar no que nem sempre vemos, mas certamente sentimos, existe ainda uma criança. Ou somos crianças que cresceram e tomaram um mundo…

Eu tenho algumas coisas assim… eu tenho medo de saci. Acredito que a Terra é viva e pulsante. Que o Sol nos observa e nos inspira. Que as pessoas se conversam por meios não verbais. Que existe uma felicidade plena em divertir-se com pequenas coisas. Que é possível fruir do mundo com aquilo que não é comprado. Que sorrir e elevar-se é primordial. Que, por vezes, nos integramos a um oceano que é o mundo, além dessa fachada de contas, responsabilidades… que somos plenos como  pessoas livres para explorar pensamentos e viver coisas com o seu melhor.

A literatura é maravilhosa porque ela nos mostra em letras pensamentos que temos ou que aprendemos a ter e, nos tornamos mais completos. Somos livros que vão sendo completos por muitas mãos: as nossas próprias, as dos autores que amamos, dos compositores que nos dão harmonia.

“Oh, os monstros têm medo”, disse Lettie. “É por isso que são monstros. Quanto aos adultos… ” Ela parou de falar, esfregando seu nariz cheio de sardas com o dedo. Então, “vou te dizer uma coisa importante. Adultos não se parecem com adultos internamente. Por fora, são grandes e não pensam direito e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles são como sempre foram. Como eram quando tinham sua idade. A verdade é que, não existem adultos. Nem um, no mundo todo.” Ela pensou por um momento. E sorriu. “A não ser a vovó, claro.” – pág. 112, tradução livre minha.

E penso quem não se sente assim… criança por dentro, com tantas coisas que talvez não contasse para outros adultos, ou dono de um mundo interno, um oceano de pensamentos e sentimentos tão particular e tão compartilhado por todos nós. Sereias nadando juntas =)

“The Ocean at the end of the Lane” me fez ronronar em pensamento e em espírito.

Um livro “Temperança”…

Pietra, pensando no que vem em seguida na vida literária.