Migrar… Mover-se

O nosso Memorial do Imigrante foi reaberto mês passado – junho 2014 – depois de alguns anos de reforma. E foi com um orgulho imenso que fomos visitá-lo.

Eu já tinha ido até lá em diversas ocasiões, pois é mais uma chance de viver um pouquinho de um passado que levou minha família a ser o que é hoje.

O espaço está cuidado, continua lindo e a parte educacional e expositora foram mexidas de forma que não deixa nada a dever à Pinacoteca, por exemplo. Vale muito a pena. Na mostra permanente encontram-se objetos, cartas, filmes, depoimentos. História. Movimentos humanos que fluem para que possamos entender um pouco de como o mundo que vivemos aqui no Brasil hoje se desenrolaram. A minha parte favorita disso tudo foram as cartas. Os registros das conversas entre as famílias. De quem chegou e contava como e o que acontecia. De quem chamava seus familiares a migrar e, quem sabe, viverem aqui uma vida melhor.

O fato é que nenhuma das histórias que eu ouvi ou li sobre esses movimentos nunca começaram bem. Quero dizer, ninguém saiu de sua terra natal por alegria ou aventura pela mera vontade de aventurar-se. São histórias de guerra, de miséria, de uma tentativa de fazer uma vida melhor do que se dava na época. Com a minha família foi assim, e com tantas outras.

Sem dúvida, que ninguém encontrou vida fácil aqui. Mas penso que, não ter de se preocupar com soldados invadindo propriedades, violência, fome, a vontade de fazer acontecer sobrepujou as outras dificuldades: língua, cultura, condições de trabalho.

Ainda assim, imagino o que foi olhar para aquele porto (Kobe, Gênova, Lisboa) e aquele mar imeeeeenso com suas possibilidades como o próprio: indecifrável, profundo, misterioso. O mar e o correr nele fizeram com que pessoas novas nascessem. A vida vem da água.

Para mim, uma paisagem se desfralda a medida com que eu chego em um novo lugar. Como se fosse construindo-se a medida com que cada passo e cada olhar é dado. E com ela, todas as suas maravilhas e curiosidades, seus assombros. Imagino essas pessoas que viram oceano e mais oceano se abrirem em terra. Depois em trilhos… e por fim, em rotina…

Quanto tempo será que foi de transição? De suspensão de uma vida? De luto e de renascimento? O quanto daquelas tantas pessoas modificou-se? Quais foram seus conflitos: enraizar-se? Renegar a nova língua? O fato é que, depois de nascerem do mar, a terra os abraçou. As pessoas que viveram como “escravos pagos” então fizeram suas famílias e hoje estamos aqui, conversando pela tela de um computador. Falando sobre esse passado que vive nas fotos, nas cartas, nos relatos orais.

Se eles não tivessem pego aqueles navios, subido naquele trem, estado na Hospedaria dos Imigrantes, certamente hoje eu não seria uma parte do que eu sou.

“Aqui, vamos ver nossos filhos e nossos netos crescerem”. Como as plantas que cultivaram, crescemos e florescemos mezzo italiani, meio brasileiros. E agradecida. Pelas ondas do mar que, até hoje, nos permitem formar novas famílias.

Sobre o Museu da Imigração: entrada gratuita em junho e julho de 2014. Festa do Imigrante a partir do dia 20/7 até dia 27 – sábados e domingos.

Passeio de maria-fumaça e história funicular: organizado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária. Sábados, domingos e feriados. Confira!

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