Por que não desistir?

Pelo simples fato de que perdemos nossa essência.  

Toque todos os sinos que puder e esqueça suas oferendas perfeitas. Em tudo há uma rachadura, uma falha. É por ela que a luz entra.
 

Eu sei que pode parecer coisa de autoajuda e que existem sim momentos nos quais precisamos parar. Mas, determinados sentimentos ou ações estão dentro de nós e nos dão combustível para viver. Por que deixar isso de lado?

Talvez esse seja um dos equilíbrios mais delicados da vida. Até onde ir com as coisas? Bem, eu acredito que podemos encarar basicamente duas situações. Uma envolve outras pessoas, e muitas vezes não vale a pena insistir. Dar murro em ponta de faca. Outras, existe cada um de nós. E se sabemos o que estamos fazendo e para onde estamos indo, ou melhor ainda, para onde temos de ir, por que desistir? 

Existem dificuldades. No mundo, poucas coisas rodam redondinho. Porém, são nessas imperfeições que aparamos nossas arestas. 

Um ano novo (civil) está despontando. E, se você é uma daquelas pessoas que gosta de fazer metas e planos, por que não incluir essas imperfeições? Com elas, seus aprendizados?

Se você, como eu, não acredita muito nessas marcas de tempo linear e deseja seguir sua vida, com todos os recheios que ela apresenta, também inclua as imperfeições, as falhas e as rachaduras. É através delas que a luz entra. 

Um 2016 excelente para cada um de vocês. Não desistam de quem são. O mundo precisa – e muito – de gente autêntica. 

Pietra

O que eu li em 2015

Mais um daqueles posts longos. Acho que não vai ter filme.

Reading Challenge do GoodReads: quase deu!

No comecinho do ano, eu fiz uma compra razoável de livros em NY. Pareceu uma ótima ideia trazer alguns em língua original para, além de tudo, dar aquela afiada na língua de Shakespeare. Mais tarde, vim a descobrir que foi uma odor excelente, afinal de contas, o valor do dólar foi às alturas e comprar livros importamos por aqui ficou meio proibitivo.

Assim, dessa safra, li coisas maravilhosas – e, em sua maioria, banidas. 1984, do George Orwell; To kill a mockingbird, da Harper Lee; Admirável mundo novo, do Aldous Huxley – e os não banidos: Dr. Sleep, do Stephen King e The oceano by the end of the lane, do Neil Gaiman.

Mais um tico adiante no ano, e depois de carregar as 568 páginas de Dr. Sleep, por aí, veio a segunda ideia literária do ano: comprar um e-reader. Veio a era do Kindle. E com ele, o conhecimento do site Lê Livros. O fato é que, a partir dele, gastei bem menos dinheiro com livros. Embora os que o site disponibiliza sejam em português, consegui ler coisas maravilhosas, como O número 0, do Umberto Eco; A odisseia de Penélope, da Margaret Atwood; Misery, do Stephen King – que me acompanhou na minha recuperação da cirurgia. Claro que houveram muitos outros, mas destaco esses como os mais legais.

Ainda, com o Kindle, aconteceram compras na Kindle Store, e consegui ler Alabardas, Alabardas, o romance não terminado de José Saramago. Li também The mind’s eye, do Oliver Sacks. Aliás, dele ainda, consegui ler Tempo de despertar. As ideias são ótimas, mas me pareceram livros que servem bem a quem gosta de uma literatura quase médica. Valeu como experiência, mas acho que não vou entrar nesse ramo de novo.

Minha lista de leitura é quase como uma revisão de sommelier: eu acredito mais no tempo da obra do que no buzz que ela possa causar. Assim, livros da safra 2015 foram praticamente inexistentes. Para não dizer que não tentei, esperei ansiosa o lançamento de Go set a watchman, da Harper Lee – e recomendo a quem gosta de To kill a mockingbird. Foi uma publicação de gênese de escrita genial. Em tempo, comprei All the light we cannot see, do Anthony Doerr – cópia física – para compreender um livro mais contemporâneo ganhando um prêmio Pulitzer. Valeu a leitura, mas não se tornou um dos meus favoritos.

Consegui por meios de internet, cópias de livros que são considerados clássicos da literatura e que precisam de uma passadinha de olho, pelo menos. The sound and the fury, do William Faulkner é um dos livros mais difíceis que já li, acompanhado de Ulisses, do James Joyce. Acredito que o estilo dos escritores e suas passagens entre personagens e formas de coloca-los no papel que fez as leituras serem um pouco mais “pesadas”. Não desgostei, mas também não faria de novo. Se a gente acha que o Saramago é complicado de ler por conta do estilo, tente Joyce e conversamos.

Peguei literatura brasileira… um pouco menos clássica, mas igualmente interessante. Não verás país nenhum, do Inácio de Loyola Brandão, e Viva o povo brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro foram surpresas extremamente agradáveis em termos de história e trama, e igualmente, com muito a ensinar sobre a sociedade que vivemos hoje.

Acredito que os pontos altos das leituras de 2015 foram, de fato, as distopias. Brave new world, do Aldous Huxley; Fahrenheit  451, do Ray Bradbury; 1984 e Animal Farm, do George Orwell colocam uma luz muito curiosa sobre o ser humano e o que está dentro de cada um que seria passível de morte para um andar mecânico da humanidade, além de alertas curiosos sobre o que estamos fazendo a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Ler esses livros mudou um pouco a forma com que eu enxergava algumas coisas, e agora tem uma pulga orwelliana na minha orelha o tempo todo.

Talvez eu não consiga escrever aqui sobre os 35 livros que eu li esse ano. Cada um deles com um gosto diferente. E talvez, também, aquele que você está lendo no momento é que deixe o sabor das histórias mais frescos em sua memória. Mas, acredito que a surpresa mais agradável foi conhecer o escritor japonês Haruki Murakami.

Eu sei que sou dessas pessoas que precisam de uma “prova” de que um escritor valha a pena tudo que se fale sobre ele. Eu havia visto algumas pilhas de 1Q84 em livrarias, mas foi a dica de uma amiga que realmente aguçou a minha curiosidade. E fico feliz que isso tenha acontecido. O mundo de 1Q84 é instigante, a trama é excelente e as personagens um tanto incomuns. Valeu a pena e agora estou recomendando Murakami para todos. Aliás, sabiam que ele gosta de gatos.

Em breve, farei uma escrita mais detalhada sobre ele. Por enquanto, só posso deixar a dica. Leia Murakami.

Pietra – que de 40, só conseguiu dar cabo de 36 =(

E 2015, hein gente?

Chegam estes 10 últimos dias do ano e a gente começa a fazer alguns balanços da vida, certo?

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Já vi alguns escritos por aí, de pessoas que estão desapontadas com 2015 de um jeito que ou ele há se sentir rejeitado ou ainda guarda o susto final antes dos créditos do filme (ano)…

De uma certa forma, 2015 vai ser sim um ano memorável, para mim pelo menos. Parece que tudo que se viveu em 365 dias – e ainda não teve o episódio final – caberia num box com 10 blu-rays e comentários do diretor.  Mas, de qualquer forma, talvez a coisa aconteça por aí mesmo. Muitos anos dentro de um que, convencionalmente, chamamos de ano.

As épocas passam e precisamos de alguns marcos para ajudarem as pessoas a fazer planos… são nossos anos, aniversários e coisas assim. As estações do ano… o ano letivo – no meu caso. Cada parte de “tempo” tem suas especificidades e, mais que isso, elas passam. Elas se seguem.

Querer fazer um “espaço” cronológico é quase uma loucura. Não acho que é possível fazer a coisa funcionar como aquelas linhas que nos apresentam em livros de História, por exemplo. O TEMPO é uma cadeia, uma espiral. E quantas vezes não nos vimos voltando a determinados pontos. Começar da estaca zero? E isso não foi privilégio de 2015.

Aliás, em uma nota bem pessoal, prefiro 10 2015s a meio 2012.

Sinceramente, acho que não precisamos esperar o dia 31/12 ou 01/01 para fazer planos ou resoluções. Primeiro, porque sabemos que esses falham ou furam. Segundo, porque é uma tremenda ilusão achar que as doze badaladas do relógio vai, magicamente, resolver nossos problemas… ou nos motivar… ou qualquer coisa que o valha.

Claro que eu sei que agora é um momento, um tempo, no qual as pessoas tendem a ficar mais afastadas, tiram pequenos recessos, fazem seus balanços e a coisa toda. Porém, isso tudo é uma formalidade.

Assim, recomendo que, não dependendo do funcionamento de dias úteis, faça suas resoluções agora e as coloque em curso. Caso contrário, vai ser como esperar aquela segunda-feira que nunca chega para começar a academia.

Nem sempre acontecimentos favoráveis estão em nossos caminhos. Eu não consigo me lembrar de um ano que não aconteceram coisas melhores ou piores. Eu me recordo, sim, de tempos que eu consegui lidar melhor ou pior com as coisas.

2016 vai ser melhor? Tomara. Quem sabe não consigamos fazer o nosso tempo valer um pouco mais? Talvez tenhamos chance, depois dessa temporada maluca de 2015, de observar nossos passos, fazer uma avaliação do caminho e seguir com um pouco mais de leveza.

A chuva vai continuar caindo. Pode ser que sejamos mandados embora do emprego. Que alguém que amamos parta. Pode ser também, que sejamos promovidos, que um estado de saúde melhore sensivelmente. Que o amor se mude para sua casa de mala e cuia.

2016 vai ser a continuação de um caminho. Aquele que os primeiros que foram dados no seu primeiro suspiro. Pode ser sim que umas partes da estrada tenham mais flores, e outros, sejam de cascalho e lama. Mas, não precisamos de tudo isso para construir um repertório de vivências? Disso nasce a sabedoria… e pode ser que esse seja o verdadeiro curso da vida. Ganhar conhecimento para lidar melhor com o caminho do TEMPO. 

É como atirar uma pedra num lago profundo: Plaft! Um barulho enorme ecoa ao redor… Agora, só nos resta aguardar e observar atentamente o que vai sair de dentro do lago

– Haruki Murakami, 1q84, livro 1

Pietra

Nós perderemos.

  
Dia de protesto na Av. Paulista e em outras capitais… Coxinhas X Petralhas… Golpistas X Democratas… Honestos X Corruptos… Certo. A voz é de quem a tem. Mas… o que você realmente sabe sobre tudo isso?

O que realmente é socialismo? O que é comunismo? O que é marxismo? O que é democracia? O que é impeachment? O que é política? O que é ser reacionário? O que é ser liberal? O que é ser pró PSDB? O que é ser pró PT? O que isso tudo significa?

Teorias… basicamente. A pergunta de um milhão de dólares é: você realmente conhece as teorias que professa? Será que não compramos uma causa frente àquilo que somos vendidos todos os dias por uma mídia que escolhe o que e como dizer?

De verdade, será que alguém efetivamente acredita que a volta da Ditadura Militar iria resolver qualquer problema por aqui? Será que um governo comunista resolveria algum?

De fato, eu penso que se cairmos em um governo direitista facista, eu e você comentando política partidária nesse momento estaríamos trocando receita de bolo. Se caíssemos num governo anarco-comunista, talvez estivéssemos trabalhando tempo o suficiente para não entrar no Facebook. Mas, isso tudo são conjecturas, porque, de fato, o que temos hoje, independentemente do partido é um tremendo estado de desgoverno. O país está sem rumo. E corremos um risco sério de achar que o Fulano ou o Beltrano seriam o salvador da Pátria. De novo…

O encanamento do governo está sujo. A água que entra limpa na Câmara – dos Deputados ou no Senado – saí podre. Não são simplesmente as pessoas, mas todo um sistema… que está apodrecendo desde a colonização. Não adianta apontar o dedo para um ou para outro. E saibam, alguém sempre vai perder.

Ultimamente, no nosso caso, quem quer que ganhe… nós perdemos. 

No entanto, estamos num país livre, certo?

Não importa se quem mata é Stalin ou Pinochet. O totalitarismo é ruim e quem perde, acaba ganhando voz e querendo combater sangue com sangue. Até quando? Será que precisamos mesmo ler frases como “Por que não mataram todos em 1964?” ou “Kim Jong-Un inventou o hambúrguer”…

O caso é que estudar História e Filosofia nos ajuda a encontrar um lado. O que não podemos nunca esquecer é que Ela é sempre contada pelo lado do vencedor.

E quem perde? Somos sempre nós, cara pálida. Sempre nós. Os distantes dos privilégios do poder.

“Poder é poder”, já diria Cersei Lannister, em Game of Thrones. Teoricamente, de novo, a teoria, qualquer um pode chegar no poder (governamental, por assim dizer). É o que o a democracia prega. Agora, o que nos garante que os nossos próprios passos, nessa passarela do poder, não corroeria nossos pés, chegando às mãos, à cabeça e à boca.

O que acaba com tudo, são as pessoas. O seu jeito de dar um “jeito” em tudo. Em ser enveredado… enredado… preso… Em ter tudo e ser escravo desse todo. Em determinadas posições, todo mundo corre o risco de tornar-se perigoso. Que pena.

Não tenho como propor uma saída. Nem sei se há uma. E temos de lidar com o que temos… Mas, uma coisa eu digo, sem medo de errar, de mim, nunca saíra uma atenção a misóginos, belicistas ou homofóbicos. Extremistas. Fundamentalistas.

Acho que está bom por hoje… E sim, eu sei que pode parecer um tremendo texto de quem está em cima do muro. O lance é que não importa para que lado você olha… a coisa fede.

Pietra

O buraco do Coelho Branco

Hoje de manhã, B. e eu conversávamos sobre os tais programas populares na televisão e como determinadas emissoras insistem num mesmo formato por anos e anos, mesmo sabendo que a coisa toda está desgastada.  Pensamos também como os tais “reality shows” provavelmente são absurdamente roteirizados para fazer servir a interesses do tipo: tem de ter mais barraco, mais briga, mais intriga… e que isso vende.

Vende mesmo?

Evidentemente que eu sei que cada ser humano tem a sua sombrinha, bem lá no fundo, que luta pelo que não é virtuoso e que pode ser refletida em programas policiais de gosto duvidoso ou uma curiosidade intrínseca que nos leva a ver programas onde pessoas têm de conviver e acaba em… barraco. Agora, será que o grosso de tudo isso também não acontece porque, em nosso mundo, acabam se tornando uma única opção? E não que haja apenas um ou dois programas ruins… mas, é tudo mais do mesmo.

O que eu venho pensando é em quando do que está disponível para nós é apenas disfarçado de escolha, opinião ou gosto. O quanto somos verdadeiramente encarcerados em escolhas que já foram feitas por nós e que apenas nos disponibilizam a cartela de cores e não o verdadeiro estoque.

O quanto somos livres de verdade para expressar uma opinião ou uma opção… e quanto mais fora da caixa que nos é oferecida, mais subversiva ela se torna. E onde isso tudo bate nos limites da convivência humana?

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Parece que é um buraco mais fundo que o do Coelho Branco da Alice.

Sem dúvida, a alienação de um povo vale muito para seus governantes. Para quem deseja poder. E aí me vem outra pergunta: poder sobre o quê, cara pálida? Se caixão não tem gaveta????

O nosso mundo pode, certamente, nos oferecer uma vida confortável. Pode suprir alguns de nossos sonhos, nossas vontades… Mas o que é preciso para chegar lá? O que são cada uma dessas coisas? Nossas vontades, nossos sonhos, nossas vidas confortáveis?

O que desejamos, sinceramente, enquanto humanidade?

Talvez, o verdadeiro conforto esteja em sorrir e ter paz no meio de tantos pontos de interrogação. Entre tantas coisas que são forçadas garganta abaixo e nem notamos. Ou que questionamos.

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os Deuses. Quem sabe esse seja o verdadeiro conforto.

Pietra

Você é tão especial quanto todo o resto

  

 Depois do dia de hoje, eu estou com a cabeça embaralhada. Nem sei bem por onde começar…

Talvez você tenha sido ensinado que é especial. E deve ser mesmo, para um grupo particular de pessoas. Porém, quando você é parte do espaço público, me desculpe, mas você é apenas mais um. Eu sou apenas mais uma. Isso não significa que não há uma diferença a ser feita, mas não quer dizer que qualquer um de seus passos será comemorado… sequer, reconhecido.

E o que fazemos? Continuamos. Seguimos pelo que acreditamos.

O posting mais famoso deste blog é “Sylvia Plath e a figueira“. E vira e mexe, eu me pergunto “por quê”? Afinal de contas, quantas tantas outras coisas eu escrevi por aqui? E quantas tantas outras me encantaram tanto ou mais que Sylvia e a metáfora da figueira…  Pode ser que a questão esteja mesmo na quantidade de coisas que poderíamos ter escolhido em nossas vidas, que talvez tenhamos sonhado, que ainda estejamos sonhando… mas que são apenas um figo entre tantos outros que a árvore oferece. E como eu ou você, a vida mostra essas possibilidades, quase infinitas. Mas, escolhemos uma ou duas ou três. Nelas, podemos mudar as nossas vidas. O fato que é que a figueira não é minha e não é sua. É de todos. E oferta seus frutos para todo mundo. Quem sabe alguns não tenham uma escada mais longa para chegar nas frutas mais altas? Quem sabe, tenha uma escondidinha que eu não vi, mas você viu? Quem sabe, ainda, eu esteja vendo apenas uma parte da árvore e você outra?

O que nos faz melhores ou piores? Quem deseja ser o seu pior? Quem realmente acredita que não está fazendo o melhor que pode? Talvez todos nós. E por isso, sejamos tão especiais quanto todo o resto.

Faz 36 anos que eu estou por aqui. Conheço pessoas que estão a bem mais. E elas sabem bem. Ganhamos. Perdemos. Somos reconhecidos. Somos julgados. Somos falados pelas costas. Somos inflamados por discussões… Somos seres humanos e seguimos os passos da humanidade. Aprendemos a ver as cores num dia cinza. Aliás, obrigada S. por isso.

Uma das coisas que eu posso fazer hoje, é agradecer por ter palavras para me colocar. Posso agradecer também, por ter acesso a palavras que podem me confortar ou me estimular. De resto, vou ali, descansar… e esperar por uma semente de dentro de um dos figos que eu escolhi. Vou esperar que um dos que eu quero tanto saia da flor.

Você e eu somos tão especiais quanto todos os outros. Mas, se abrirmos mão do que acreditamos pelo cansaço ou pela falta de estímulo, o Partido vence. E o Big Brother está te olhando. Só esperando pela sua toalha… Não a deixe cair no chão – #1984

Pietra