Sylvia Plath e a Figueira

Eu me vi sentada aos pés desta figueira, morrendo de fome, pelo simples fato de que não conseguia me decidir sobre qual figo deveria pegar. Eu observava cada um deles, mas escolher um significaria perder todos os outros.
Eu me vi sentada aos pés desta figueira, morrendo de fome, pelo simples fato de que não conseguia me decidir sobre qual figo deveria pegar. Eu observava cada um deles, mas escolher um significaria perder todos os outros.

Eu sou uma pessoa da gênese. E do estilo. Como disse a querida N., não adianta nos prendermos ao texto cru, se não sabemos de onde ele vem, ou ainda, por que ele vem. Todos os autores que me encantam acabam ganhando essas pesquisas… Saramago, Woolf, Couto, Huxley, Lee. Agora, Plath. Como aquelas propagandas ruins de rádios populares, a “coisa” do momento é Sylvia Plath.

Não cheguei na metade de “The Bell Jar”, (A Redoma de Vidro, em português), mas estou presa. O texto é gostoso de ler e como é interessante estar dentro da cabeça de alguém. Saber como ela pensa a medida de que passa pelas coisas. Talvez seja a beleza dos “streams of conscience”. Woolf tem muito disso. Me contaram que Joyce também. Bem brevemente…

Sylvia foi poeta, principalmente. “The Bell Jar” foi o seu único romance publicado e basicamente é uma autobiografia, com algumas ficções e dramatizações… bem, seus poemas eram assim também. Seu estilo era um de contar o que estava em si, em acontecimentos e em sentimentos.

E ainda não tendo chegado à metade do livro, estou pensando e repensando na alegoria da figueira que ela escreveu. Que estamos sob uma figueira e que ela têm muitos figos, lindos e apetitosos. Cada um deles, uma de nossas fantasias de vida: ser uma boa esposa com uma linda família; ter uma tremenda carreira; ser uma campeã olímpica; e quantos outros estão ali aos quais ainda nem pensamos. Porém, com medo de escolher um e perder o sabor dos outros, ficamos embaixo dela, com fome. E assim, eles apodrecem e caem aos nossos pés.

E penso que isso é muito triste. Que isso tem muito a ver com as nossas vidas. Mas também com a condição que Sylvia tinha. A depressão e a incapacidade de respirar. De estar o tempo todo sob uma pressão de pensamentos incessantes que nunca se realizam.

Eu sei que a vida é o colher desses figos. Alguns, colhi e comi. Mordi e engoli o bicho que estava dentro deles. Outros ainda, tão suculentos que nem acreditamos que tenhamos aquilo em nossas mãos. Mais alguns, acredito, nos são oferecidos. Os comemos ou não.

São essas pequenas escolhas que desenrolam o que nos tornamos. E penso que não tem por onde: não podemos morrer de fome. Um ou outro, acabamos escolhendo.

Pessoas como Plath, no entanto, morreram mesmo de fome. E fico imaginando o que foi a vida de uma mulher que mesmo afogada em si mesma, colocou o que tinha para fora (ou colocou?). Talvez o grande desafio do escritor seja isso mesmo: por em palavras o que se embaralha dentro da cabeça.

Por enquanto, poucos figos me fazem arrepender. Mesmo porque, tirar alguns dos galhos, apresentaram alguns outros. Mais altos. Mas muito melhores de aproveitar.

Plath usou as palavras para dar forma a uma alma de mulher. E estou aqui pensando o quanto mais de mulheres precisam disso?

O quanto mais precisamos expor, sem medo, quiçá com poesia para não colocar a cabeça dentro de um forno?

Se não aproveitarmos bem os figos maduros e deliciosos que podemos alcançar, viveremos confinadas numa redoma de vidro, cheia de gás carbônico…

Pietra

PS: a dor física que ando sentindo tem muito desse gás que vai consumindo aos poucos. Desfigura os olhos que olham para os figos roxos e gordos da árvore. Desejo que logo cortem isso… O meu figo de ouro é retomar o que eu sei que posso.

A vida dentro e fora dos livros

Hoje o blog fez um ano. Então resolvi olhar as postagens de volta, para ter um pequeno panorama do que aconteceu nesse tempo. Eu li bastante, choraminguei um pouco, fiz algumas ponderações. Tivemos aqui quase 850 views e reitero que os postings mais famosos ou com mais visitas foram os de desabafo e pseudo-mimimi – talvez seres humanos buscando espelho para seus abafos.

Quando eu criei esse blog foi mesmo para desanuviar a cabeça. Tirar de dentro de mim coisas que eu li, que eu pensei, coisas legais que eu fiz… Enfim, coisinhas de vida que eu sempre achei que não cabem no Facebook.

Mas, uma das ideias que eu tinha, mesmo antes de começar esse blog e que ainda estão tão presentes é como aquilo que a gente carrega na vida fictícia acompanham a vida não-ficção que temos. E claramente estou falando dos livros.

Eu sigo um board no Pinterest que é uma comunidade de livros, e nela todo tipo de livros, listas, falas de autores, entrevistas, capas etc etc etc, figuram. E isso dá ideias e parâmetros, do que ler, do que não e por aí vamos. Com isso, eu acabo vendo muitas coisas de autores consagrados que aguçam sim minha curiosidade e me fazem ir pela internet buscando os diachos dos livros em formato MOBI – para Kindle – e saciar essa vontade toda de me meter na vida dos outros. Não tem jeito, sempre que começamos uma obra de ficção, estamos entrando numa vida alheia para vive-la com aquelas personagens. Tudo isso começou conscientemente em 2012, quando li “Ensaio sobre a Cegueira”, do Saramago. Daí pra frente, peguei muitas coisas interessantes pela frente que te fazem pensar exatamente no mundo em que vivemos e nas relações que temos com as pessoas.

Nos últimos dois meses porém, eu li 3 livros de não-ficção: A briefer History of time, do Stephen Hawking; Teatro do Bem e do Mal, do Eduardo Galeano; e Don’t know much about mythology do Kenneth Davis. Todos muito interessantes, obviamente, mas sabe quando falta alguma coisa?

Então, ontem, passando em frente a um “sebo gourmet”, segundo o B., eu vi na vitrine uma pancada de livros bons, alguns que eu já li e resolvi buscar mais um livro para me inspirar nesses dias que o blog estava tão parado.

Das listas de livros banidos, escolhi “The bell jar”, da Sylvia Plath. Já foram 10% do livro e o relato é bem interessante. Primeiro que acontece em Nova Iorque, que é uma cidade que dá um caldo literário. Depois que ela vem mostrando uma ideia curiosa e interessante de que ela está vivendo uma coisa que muita gente mataria para ter, mas de uma forma meio distante, quase desdenhosa.

E fiquei pensando um pouco nisso. Penso nisso sempre, aliás. De uma perspectiva de fora, aqui em casa vivemos uma vida boa. Não que fazemos todos os pontos se amarrarem, porque eu imagino que isso nunca vai acontecer… sempre tem uma aresta na vida que precisa de aparos.

De toda forma, a impressão que eu tenho, já faz uns 3 anos é que sempre que um livro “cai” nas nossas mãos, ele vem mostrar alguma coisa para gente sobre a nossa vida, que merece uma atenção. Pode ser sincronicidade. Pode ser o simples fato que a Literatura é uma forma de arte e como tal, é um retrato humano, e assim, nos vemos espelhados nela.

Toda história não termina nela mesma. Ela funciona e existe porque o leitor constrói uma relação com o que está acontecendo. São seres humanos se olhando por meio de palavras.

Eu sempre digo que gosto de conversar com pessoas inteligentes, porque elas sempre nos acordam para aquilo que não sabemos ou para perspectivas que não havíamos imaginado. Notamos a nossa pequenez e até, como dizia o filósofo, para nossa ignorância. O quanto de tudo ainda não sabemos ou não saberemos? É difícil de mensurar.

Por fim, ler livros informativos é ótimo, pois em seus fatos didáticos aprendemos coisas sobre coisas absolutas da vida. Como um estudo acadêmico, científico, medido e observado, relatado e “provado”. A ficção, não. Ela nos leva para as conjecturas e pelos relativismos dos olhos dos outros. Daquilo que pensam e percebem sem a menor pretensão de que aquilo seja medido ou provado. O relato da nossa própria vida é uma versão daquilo que gira no mundo enquanto ele viaja a 30km/s. Todos os dias.

Assim, como no primeiro posting desse blog, quando um livro de uma mulher me inspirou a começar a escrever aqui, sobre mulheres escrevendo no mundo, vem outra mulher, Sylvia Plath e começa a me encher de palavras e sementes de novo. Isso é importante. É o ar que eu leio e escrevo.

Pietra