Passos dentro e fora do DEOPS

Corredor onde os presos passavam uma hora, por semana, no banho de sol.
Corredor onde os presos passavam uma hora, por semana, no banho de sol. Eu entrei no DEOPS porque eu quis, e saí livremente…

Numa tentativa de conhecer o realismo nas esculturas de Ron Mueck, nos deparamos com uma fila monstruosa na Pinacoteca de São Paulo. Triste por um lado… mas, bem satisfatório por outro: as pessoas estão se mobilizando para ver exposições. Claro que pode ser uma pegada de modinha, pra dizer q eu fui e tirar um “selfie” com uma das obras do artista. Mas, quem sabe elas não mexam um tiquinho com as pessoas, gerar aquela apreciação? Bom, tempo ao tempo e espero que quem estivesse na fila ontem possa ter aproveitado.

Aliás, vale dizer que a fila pro Museu  da Língua Portuguesa estava imensa também. Enfim…

Andamos mais um pouquinho lá pela região Luz. Depois de um almocinho honesto ali em volta do Parque da Luz, me lembrei de um outro local que valia a visita: O Memorial da Resistência. Ele fica na Estação Pinacoteca, na sede da Sorocabana, e serviu como delegacia do DEOPS (Departamento de Ordem e Política Social) em São Paulo.

Quando se pensa no golpe de 64, DEOPS é quase como falar de SS na época da 2a. Grande Guerra… tortura, morte, desaparecimento, sofrimento, censura. E ter a chance de olhar as celas e as linhas de tempo que contam o que aconteceu no mundo, no país, e na cidade tanto sobre repressão quanto sobre resistência faz muito pensar.

A imigração italiana trouxe duas formas de ideias para o Brasil que foram estopins pra tudo que aconteceu lá naquelas celas: o anarquismo e o fascismo. Independentemente de linhas de pensamento que cada um acredita, toda vez que um tenta sobrepujar o outro, as coisas ficam muito complicadas e isso se espalha de um forma com a qual se esquece que são pessoas envolvidas de ambos lados. Ideias podem coisificar a humanidade e todos se perdem. E sofrem.

Ferrolhos sempre abertos... Foto de B. Auriema
Ferrolhos sempre abertos…
Foto de B. Auriema

Entramos e saímos livremente das celas. São minúsculas. A estrutura da coisa toda é completamente chata e tudo que se tinham eram as paredes… os cantos de quem estava encarcerado.

Para todo sangue que escorreu, uma lembrança se mantém... viva!
Para todo sangue que escorreu, uma lembrança se mantém… viva!

As marcas das pessoas, seus registros físicos recriados nas paredes, os relatos de quem esteve ali, comove. Quando o tempo passa, claro que as feridas atenuam… Mas, resistir é não se deixar ser tomado pela tirania do outro… Manter o direito de ir e vir. Muitas vezes, falamos de bem maior, ou de manter um status quo. Não importa. Ditadura nenhuma vale. Esquerda, direita…

Qual é a dificuldade de viver no caminho do meio, onde pode-se dizer o que pensa? Sem ódio… com senso…

Ah, que alegria imensa poder colocar meus pés para fora do DEOPS com minha sanidade intacta.

Cantos de encarceramento...
Cantos de encarceramento…

Pietra, do centro, sem celas, com direito ao limite individual…

Mais algumas imagens do lugar feitas pelo B.

Pia original dentro da cela
Pia original dentro da cela
Registros
Registros
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Das coisas do dia a dia…

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My cheap shot – unhas

Tudo começou com uma espátula de unhas que eu comprei há um tempo. Foi indo tudo mt bem até o dia que eu percebi que a dita cuja estava deformando a base da unha quando eu empurrava as cutículas. Abandonei imediatamente. O problema? Minha unha ficou imensamente ondulada… e eu sabia que ia dar M.

E chegou a hora tão esperada… Quando a parte que ficou mais fininha chegou na ponta do dedo, elas começaram a quebrar loucamente. Parece que eu tenho lavado louça com thinner =( Nenhum esmalte do mundo para nelas. Bom, o que diz o bom senso? Vamos tratar das mocinhas.

PS: eu juro que ia por fotos, mas aparentemente elas não carregam…

A primeira coisa que eu resolvi foi dar um descanso pro esmalte. O que tem me doído um pouco, afinal de contas, duro ter tempo e não poder fazer as unhas =( Mas enfim… passei a tratá-las com um programa de crescimento da Sally Hansen. Passar todos os dias, como uma base. As unhas ficam bem brilhantes e bem bonitas e o produto promete que elas cresçam em uma semana… A noite, tenho passado o complexo restaurador da Risqué. Eu me lembro que usei em outras ocasiões e ele operou milagres.

Tudo bem? Tudo bem! Só que não =(

Uma das ditas cujas que quebrou, partiu-se bem ao meio. O que já seria uma cena feia em si, porque além do cotoco de unha que isso gerou, ela continua querendo quebrar, com pontinhas que enroscam em tudo.

Então, depois de algumas pesquisas, apareci com as unhas postiças adesivas da imPRESS. O que eu pensei: com elas, o cotoco fica coberto e as pontinhas não grudam em mais nada e, quiçá, cresça para eu poder cuidar disso com decência e graça.

Bom. Coloquei as unhas. O como faz, vc encontra nesse vídeo bem legal: https://www.youtube.com/watch?v=sQXV3HyU8jY

Eu sei que foi uma solução dessas mega instantâneas e que eu não sou mt dessas coisas, mas o fato é que visualmente, parece mt melhor e quem sabe eu consiga deixar o cotoco em paz até que torne-se unha novamente.

Diz o pacotinho que a unha dura uma semana… bom… depois dessa experiência. eu conto como foi… e tento colocar umas fotos!

Pietra, que sente-se como uma boneca com essas unhas nos dedos…

Joelma

Não é a cantora… ela ainda canta? Bom, não importa… mesmo.

Tudo isso começou numa conversa com uma amiga semana passada. Trocávamos ideias sobre o quanto nos prende e nos interessa histórias “sombrias” de lugares e pessoas. Talvez por não fazer parte direta de nossas vidas, por curiosidade “mórbida”, por tentar entender por que algumas coisas acontecem e até que resultados elas causaram: físicos e metafísicos.

Uma de nossas considerações foi como alguns fatos de vida real podem ir muito além de ficção. Evidentemente, existem obras que nos prendem e nos colocam pra pensar muito sobre elas, por vezes, pedindo até uma catarse, um closure. Foi o meu caso com o livro “The Shining. Precisei fazer pesquisas, ver alguns documentários, ler entrevistas e coisas assim. Acredito que foi um jeito de me despedir das personagens e do que foi contado. Foi um pouco difícil escolher outra leitura – o que agora consegui e já estou apaixonada (mas sobre essa nova leitura, vamos depois).

Outra coisa que fiquei pensando com o B. foi o quanto fatos podem deixar impressões em locais – o que era uma questão em “The Shining“. Aliás, me deixou refletindo sobre como uma das casas que eu morei pode ter ficado bem assombrada por tristeza e o último apartamento pode ser um local para uma outra família ser bastante feliz.

Dias depois dessa conversa, estava eu para pegar um ônibus na Avenida 9 de julho e percebi que estava bem na frente do terminal Bandeira. Não me fiz de rogada e comecei a olhar em volta. Dei aquele Google para descobrir onde ficava o antigo ed. Joelma – q eu já sabia que era por ali. Qual não é a minha surpresa? Estava na frente dele, do outro lado da rua. Assim, dava pra ver o prédio todo em seu esplendor amarelo. Na hora, me peguei na maior viagem sobre o que aconteceu com o edifício em si e com as pessoas que estavam ali.

Sem dúvidas, existem muitas histórias e muito se diz sobre o quanto de salas vazias ainda estão lá mesmo depois de 40 anos do acidente. Também pensei em como um local corriqueiro como aquele poderia guardar tanta história e sim, tanto sofrimento. Corri para mais pesquisas nos dias que se seguiram. O lugar em si, parece que carrega muita coisa ruim, porque antes do incêndio, houve um crime pavoroso acontecido ali em 1948. E existem algumas teorias de que aquilo, juntamente com outros acontecidos ao longo da história de São Paulo, contribuem para seja um local “amaldiçoado”.

Uma das coisas curiosas dessa história toda, é o lance das 13 almas. São pessoas que foram calcinadas dentro do elevador e não conseguiram ser identificadas. Estão no cemitério da Vila Alpina, SP, e diz-se que essas almas intermediam graças… e o pedido é jogar água sobre os túmulos. Achei incrível isso. Não que, necessariamente, aqueles espíritos estejam ali e precisem daquela água, embora eu acredite que se o corpo é destruído dessa forma, o espírito não volta na forma que conhecemos. O que eu quero dizer é que para a cura deles é necessário tempo e uma “infraestrutura” que não os deixaria presos ali… Porém, a emoção que se impregna nos corpos pelo acontecido deve sim mexer com toda a energia envolvida… E dessa forma, ouvir pedidos de socorro e a coisa toda. Aliás, eu imagino que, no próprio prédio isso pode acontecer. E lá, sim, dado a forma com que algumas pessoas morreram, os espíritos devem vagar. Então, imagina: emoções de medo impressas nas paredes mais espíritos perdidos, que não conseguiram sair dali. Deve ser um inferno na terra estar naquele imóvel.

Eu até achei que o local tem um ar meio “assustador”, eerie mesmo. Por vezes, parece que o prédio quer te engolir. Claro que pode ser uma sugestão minha, sabendo o que aconteceu. Mas que não seria legal trabalhar ali, não seria… É. O “saber” muda muita coisa. Talvez um estrangeiro que passasse por ali não perceberia, e o prédio passasse como mais um que está na rua. Porém, penso que para os mais sensíveis, algo deve chamar a atenção. O que eu quero dizer é que o tanto de coisas que um local carrega, deve emanar de alguma forma. E sejam por fantasmas como os concebemos ou pela impressão coletiva que o lugar agrega, afinal, muita gente sabe o que aconteceu ali, estar ou passar por um lugar assim, mexe com os sentimentos e com as sensações. Talvez, o inconsciente coletivo ajude essas histórias – e sentimentos – a se manterem pelo tempo. Como tantas coisas, o quanto de todo esse “susto” não fica na nossa cabeça?

Eu insisto num ponto que toquei no posting sobre “Morte não narrada”. O ser humano mantém sua humanidade pela contação de suas histórias. São como pegadas. É o que desejamos saber sobre o que acontece conosco como um grupo. Talvez fiquemos refletindo no que poderia nos acontecer. Queremos saber o que se passa entre as pessoas. Afinal de contas, é o que somos. Quem sabe não é a curiosidade de perceber o que se estabelece entre o nosso grupo (humano). Ainda gostaria de poder entender melhor o por quê temos atração por histórias tão extremas…

Pietra, que adora descobrir pessoas que têm as mesmas curiosidades que ela…

Ressaca literária – post longo, se preferir, espere o filme =)

Aquela hora quando acabamos de ler um bom livro e ficamos tristes porque foi o fim!

Primeiramente, eu preciso dizer… esses não são os postings mais famosos do blog, os literários. Os de unha rendem muito mais. O que, em si, não me chateia, afinal de contas, gostamos de tantas coisas juntas e  misturadas, não é mesmo?

Esse ano foi muito profícuo em termos de leituras. Acredito que eu nunca consegui ler tanta coisa boa em 365 dias… e isso, sem dúvida, faz com que terminemos o ano numa tremenda de uma ressaca. Que foi recorrente, preciso confessar… de divagar longamente sobre a história, o que mais de seus personagens, ou o estilo do autor e, sempre, meu Zeus, de onde essas pessoas tiram essas histórias, essas palavras.

O primeiro livro do ano foi “Incidente em Antares”  de Érico Veríssimo. Aliás, piu vero em termos de estilo e do que retrata sobre a nossa vida brasileira. Além da coisa toda da realidade fantástica e da delícia com a qual o autor leva a narrativa – não dá pra largar (mesmo) – as ponderações sobre a nossa feiura como sociedade e de como podemos ser descartáveis como pessoas – mortas ou não – faz pensar bastante. Fiquei refletindo também o quanto de nossos defuntos não levantam-se e ficam fedendo na praça… Aliás, como essas coisa de brincar literariamente com a morte é um tema atraente. Não consegui de deixar de lembrar da leitura de “Intermitências da Morte”, do Saramago… tudo bem, duas ideias diferentes, mas lá está ela, sorrindo para nós.

Depois, por influência de um livro sobre a cozinha das escritoras, o qual eu já escrevi aqui, acabei mergulhando em Virginia Woolf e suas obras. Comprei inclusive uma compilação excelente, “The Selected Works of Virginia Woolf”Obviamente, também houve uma influência de “As Horas“. Enfim, o que dizer de Virginia? O estilo encanta e te ensina tantas palavras quanto cabem em seu buffer – se ler o original… Suas ideias sobre produção literária e de uma vida que pode ser aproveitada e depois é tomada pela fraqueza, a observação da multitude que o ser humano por ser… está tudo lá. Esse ano aproveitei bem “Mrs. Dalloway” e “A room of one’s own“. Ainda quero ler “Orlando” com calma. O que mais me pegou nas obras dela foi o quanto as mudanças fazem coisas com as pessoas que são nada aparentes… e quanto é rápido ter percepções do outro pelo nosso prisma. É quase instantâneo.

Então, por diversão e leveza, resolvi ler “Breakfast at Tiffany’s“, do Truman Capote. Lindo, leve, bem escrito. Libriano de verdade… e ainda, com umas noções curiosas de como a vida se desenrola, muitas vezes, sem uma necessidade absurda de dramas e de mi mi mi. A Holly vivia o que acreditava e deixou muita coisa para isso… mas sem agressividade. Ainda, o importante é que tudo dá certo para o gato (spoiler), mas é diferente do filme – que, aliás, achei lindo de fotografia e bem fraquinho de roteiro.

E foi quando, ainda apaixonada pelo autor libriano com lua em escorpião, como eu, comprei “In cold blood“, do mesmo Truman Capote. O que foi muito interessante é que esse livro marca um novo estilo de escrita que consagrou – com toda razão – o autor: a ficção jornalística. A história contada no livro é verdadeira e muito do que foi colocado foi escrito por meio das entrevistas que Capote fez com as pessoas do lugar e com os assassinos da família, porém tudo foi colocado para acompanhar como um romance mesmo. Interessantíssimo, tanto pela habilidade de escrita como pela vista dos envolvidos e como cada um sentia-se frente ao ocorrido. O que pensam os assassinos? Os familiares… e o desfecho da coisa toda, embora conhecido, porque foi jornalisticamente documentado e para saber da história toda basta entrar Wikipedia, mas o jeito que foi colocado deixa você saber de vários lados do ocorrido.

Ainda esse ano, li um gênero que para mim não é tão familiar, mas a trama é extremamente envolvente. O teatro. Ganhei da minha cunhada a primeira edição de “The Cocktail Party” do T.S. Elliot. Pensei muito em “Mrs. Dalloway” pela exposição das pessoas em torno de uma festa e como o caráter de cada um vai se desenvolvendo, além de demonstrar como algumas situações na vida vão nos tomando de uma forma que não conseguimos sair delas, ou não percebemos um jeito de sair. Como o envolvimento emocional é mesmo um véu sobre a razão e a percepção do mundo.

Por fim e por enquanto o último que eu li porque não consegui ainda fazer uma catarse dele, foi “The Shining” do Stephen King. O filme é muito aplaudido e como peça cinematográfica, bem feito e cheeeeeio de polêmicas e teorias da conspiração. E preciso dizer que foi o final que me compeliu a ler o livro, além do clássico de Joey Tribiani e o colocar do romance no freezer. Bom… primeiro de tudo, me impressionou a capacidade narrativa do autor e como é difícil largar o livro, pela trama, pelo fundo das coisas, das explicações antes de jogar o terror propriamente dito na história. Depois, o desenvolvimento das personagens é muito intrigante e como objetos inanimados fazem seus lugares como personagens importantes. E (spoiler) embora o final não seja “misterioso” como o do filme; não tem aquela pegada “o que Jack Torrance está fazendo naquela foto?”, ele te coloca dentro dos olhos das pessoas envolvidas naquela psicodelia toda e te faz muito pensar: e se fosse comigo… ou ainda, nossa, muito poderia ter sido… sensacional.

Longo, né? Claro que houveram outras leituras, mas acredito que essas valeram nota pelo impacto estético e reflexivo que tomaram. Espero que ano que vem eu consiga ter leituras tão boas. Já coloquei mais um Saramago no criado mudo… “O Ano da Morte de RIcardo Reis”  e estou fazendo uma wish list… tanto por autor e vontade de conhecer novos estilos quando pelo buzz… “The Ocean by the end of the road“, do Neil Gaiman – quem não amou “American Gods” ou as histórias da Morte (olha ela aí novamente)… “To Kill a Mocking Bird“, da Harper Lee; “Doctor Sleep“, do Stephen King, como sequência do “The Shining”; terminar finalmente “The Catcher in the Rye”, do Salinger e, quem sabe, dar uma chance a Jane Austen… ainda não sei. Uma coisa eu sei: vou tentar arrumar “Alabardas” do Saramago e ler uma obra que não terminou… isso sim vai ser uma tremenda ressaca…

Obrigada a quem leu o posting até o final. Vocês foram bravos como os Stark =)

Pietra, que pretende fazer um Breakfast at Barnes and Noble em breve