Papo reto com o primeiro ano


Tive uma conversa direta e honesta com meus alunos do primeiro ano hoje. Eles têm 6 anos. E não gostam de ser tratados como bobos ou inocentes – na pior acepção da palavra. Eles perguntam porque, de fato, querem saber e quiçá confiam em mim. 

E. me perguntou, informalmente, se, a medida que a gente cresce, os professores que temos vão ficando “mais bravos”. Logo imaginei que vinha uma puxada de orelha deles em mim. Que nada! Ele me disse que sua mãe lhe contou que “uma vez ela estava com dor na barriga – ela já era grande – e o professor dela não deu a mínima”. 

Entendi o “bravo”. Distante. Desinteressado. Sem querer, estamos em uma roda conversando sobre como a vida passa e o olhar das pessoas muda sobre nós. 

Disse ao grupo que, conforme crescemos, os professores se tornam muitos e o entendimento que temos sobre eles – e eles, sobre nós – também muda. 

Contei a eles que na faculdade temos muitos professores que podem nos inspirar muito sobre o trabalho que decidimos fazer na vida, mas que eles confiam que já sabemos fazer coisas sozinhos. A tutela diminui brutalmente. E que, se eu pego no pé deles hoje – e pego meeeeesmo – é para garantir que eles sejam independentes e que saibam, cada vez mais, cuidar de si e dos seus estudos.

Curioso, E. me perguntou se esses professores também permitem que brinquem. Eu disse que talvez, mas a rotina escolar muda. Como mudou a medida com que eles avançaram da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Ele fez uma cara um tanto tristonha. “Eu não quero fazer faculdade, então. Para não ter que trabalhar”, concluiu. 

“Bem, E., então de onde virá o dinheiro para você poder comer, por exemplo? Todos trabalham, numa coisa ou outra, para se sustentar”, rebati. 

Então começou uma discussão sobre o que gostariam de fazer. Até que chegamos na faculdade de música, a qual deixou E. encantado. 

“Mas, não se engane. É um estudo que exige dedicação. Tudo de trabalho dá trabalho. Pensem. Vocês são o meu trabalho. Acham que eu gosto de estar aqui?”, perguntei. 

Uma disse não. A que foi interpelada: “claro que ela gosta. Senão já tinha ido embora. Você está aqui nessa escola por nossa causa, não é?”, outra E. pergunta. 

“Claro! Sem vocês não tenho trabalho e não posso fazer uma coisa que eu amo… Ensinar.”

Outros pequenos assuntos entraram no meio, mas terminei dizendo a eles, bem baixinho: “vou contar um segredo para vocês. Serve para a vida toda!”

E se abaixaram para ouvir a confidência, o pulo do gato: “quando vocês descobrirem o que gostam de fazer, não parece trabalho. Você nem sente que está trabalhando”. 

É possível que isso só faça sentido daqui um tempo. Ou que eles esqueçam disso, dessa conversa toda. Não importa. O que interessa é que, em 67 dias letivos, nos quais me dedico a avançar a leitura, a escrita deles, eu tenha, minimamente, ampliado a visão e o que entendimento de mundo deles. Pois é para esse mundo, deles e meu, que dedico as minhas horas.

Quem sabe o Ensino Fundamental seja para esses fundamentos da vida?

Pietra 

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