Viver as nossas fantasias

Quando eu era pequena, talvez pela dose de desenhos que eram oferecidos, séries e coisas assim – estávamos saindo dos anos 70 – eu era louca por super-heróis. Inclusive, aos 3 anos, minha mãe fez a minha festa de Liga da Justiça. Era para ser só da Mulher Maravilha, mas o que poderíamos achar no Palácio dos Enfeites naquele tempo? Bem… o fato é que eu me recordo de estar no tanque de areia da pré-escola girando, achando que ia me tornar a Mulher Maravilha. Outras vezes, eu escalava os brinquedos, querendo ser a Mulher Aranha (Jessica Drew) e achava bem bacana ver a Poderosa Isis na TV. Minha mãe chegou a fazer tiaras de Mulher Maravilha e havia em casa uma lancheira da mesma personagem. E tudo parecia muito legal.

Porém, eu tinha um guilty pleasure. Meu sonho de consumo era ser a Mulher Gato. Eu sempre tive gatos… eu amo gatos… No entanto, eu me sentia vendida ao maniqueísmo infantil que prega que o que é bom é bom e o que é mau é mau e ponto final. Você, crescendo, claramente quer ser do bem e assim, aceita e virtuosa. Claro que eu imagino que outras pessoas podem ter tido infâncias ou sentimentos diferentes. Poucas vezes, as crianças se deixam levar por essa vontade de explorar o “outro lado” e tornam-se vilões das histórias que tanto gostam. Mesmo porque, se formos olhar com cuidado, o que é colocado como “mau” nas histórias para crianças, realmente é mau sem um motivo… simplesmente pelo “bom” ter seu contraponto e quiçá um razão de ser.

Muito bem. O tempo passa, ainda bem. E as coisas na vida e nas histórias acabam ganhando nuances e motivos. Depois de muitos anos vim a entender que a Mulher Gato, por exemplo, que eu amava tanto quando criança, não necessariamente era uma pessoa ruim. Ou má. Ou até vilã.

A maturidade é uma coisa muito bacana porque ela permite que percebamos a complexidade das coisas e das pessoas e encontremos nelas as mesmas que estão dentro de nós. Assim, é muito comum hoje, ver as pessoas de mais de trinta com suas fantasias, em festas ou encontros, de personagens que, quando crianças, eram impensáveis.

Bem… ontem foi a minha vez. Depois de 36 anos procurando uma brecha, eu consegui ser a Selina Kyle. Ajeitei de uma forma bem “Faça você mesma” a fantasia e fui a festa de uma amiga. E preciso dizer: que delícia foi aquilo.

  
Entrar na pele de algo que te representa, talvez seja uma das brincadeiras que ainda valem aos adultos, uma vez que não mais brincamos de bonecas… Claro que temos nossos jogos, nossos encontros virtuais… mesmo nossas representações entre 4 paredes. Talvez seja uma necessidade humana. Utilizar-se dessas representações. Sem dúvida, elas são esteriótipos e como já mencionei aqui uma vez, os esteriótipos não são errados, eles são incompletos. 

Mas, ainda precisamos dessas figuras de cores saturadas para podermos entender um pouco melhor o que acontece conosco e como podemos lidar melhor com o mundo que nos cerca. Brincar, representar é como ler… é uma chance ótima de fazer uma catarse. De viver ou sentir algo que não nos é posto no dia a dia.

Não que eu queira sair por aí arrombando cofres ou levando peças de museu para casa – ou me apaixonando por um morcego. No entanto, ser uma pessoa que se veste e se move como um gato talvez seja a minha chance de mudar de forma e ser esses bichos que eu amo tanto e que representam beleza para mim.

Pode ser sim, uma questão entender-se e ser internamente aceita. Pode ser mais um pedaço daquelas buscas pessoais de autoafirmação e consciência. Se for, pelo menos que seja lúdica.

Miau!

Pietra

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