A busca do tempo

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Eu sei que pode parecer uma alusão a Proust, mas não é o caso… Estou aqui pensando em tempo… o quanto achamos que ele é linear… e o tanto que ele se atravessa na nossa frente. Acabamos por parar um momento.

Por que parece que sentimos falta do que nunca vivemos?

Por que existem lugares que o tempo parece mudar?

Como o tempo se desenrola naquilo que fica parado?

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Ontem tivemos a oportunidade de visitar um lugarejo meio perdido e meio esquecido na cidade de São Paulo. Trata-se da Vila Operária Maria Zélia, no Belenzinho. Foi a primeira vila operária do Brasil – inaugurada em 1917, pelo industrial Jorge Street. Foi um lugar efervescente e serviu à indústria por muito tempo. Agora, com quase 100 anos, ela tornou-se uma dicotomia entre hoje e ontem.

O local é fechado, como uma espécie de condomínio. Em parte isso acontece por ser um espaço tombado pelo patrimônio histórico de São Paulo. Mas, junto com os tantos prédios que serviram àquelas pessoas, muitas casas ainda estão vivas e habitadas. Algumas ainda servem como memória do seu nascimento. Outras, foram desfiguradas.

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As marcas do lugar são os armazéns, as escolas e a capela São José. No entanto, é um local que fica claro como o tempo toma o espaço. E o dilui. 

Sabe-se, claro está, que as coisas mudam. De propósito ou de entendimento. Talvez, em tempos idos, pouco se ligava para manter o passado como ele era. No entanto, é inegável a ponte que ele para o nosso presente e para o entendimento pleno do que somos hoje. Eu sei que não se para o tempo e que ele faz o seu trabalho. De arrastar para longe o que é ignorado pelas pessoas. Ou será?

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Eu fico pensando se, como necessidade humana de contar histórias, não deixamos que a nossa História se esvaneça. Ou pior. Que passe em brancas nuvens, para que as futuras gerações tenham apenas dicas e nunca certezas do que fomos um dia.

Senti-me marcada especialmente pelas escolas. Uma de meninos. Outra de meninas. Haviam tempos nos quais os gêneros não se misturavam nem para estudar. Acreditou-se que os meninos precisavam saber um tanto de coisas. E as meninas, algumas outras… Porém, os prédios aludidos estão abertos ao céu que os cobre. A ponto de cair sobre a cabeça de quem os visita a qualquer momento.

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Pensei em todos os meninos e meninas que passaram por ali. Seus professores e seus trabalhos. Será que foi tudo em vão? As escolas se moldam à gravidade, restando a sombra do que foi feito um dia. Vários dias.

Nesses momentos, eu fico pensando se tudo o que fazemos não é apenas uma brincadeira do tempo. Afinal, o que sobra? Fisicamente, memórias retorcidas de pessoas que, eu imagino, nem lá mais estão. Será que tudo que fazemos resulta mesmo em ruínas e terra batida?

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Ainda, insistimos. Queremos deixar nossas marcas. Nossos pensamentos. Nossos fazeres. Pode ser que sobrevivam em outras pessoas, em outras memórias. Mas, penso que nada disso tornar-se-á matéria.

Talvez esse seja o legado do tempo. Desfazer os feitos do esforço. Transformar cada um de nós em lembranças com poucos nomes, que se não tomada novamente pela mão humana, encarrega-se o destino de fazer-se apenas um fio. Que um dia, romper-se-á.

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Pietra

PS: se você se interessou e deseja visitar a Vila Maria Zélia, tire um tempinho e vá. Por uns instantes, o tempo de São Paulo há de parar.

Vila Operária Maria Zélia: Rua dos Prazeres, 362

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Maria_Zélia

https://www.facebook.com/vilamariazelia

 

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One thought on “A busca do tempo

  1. Acredito que o tempo apaga os nossos nomes e dissolve as lembranças do que fomos, mas não destrói o que construímos. O edifício da escola tornou-se ruínas, mas o que foi ensinado ali fixou-se nas mentes e nos corações. Mais do que isso: transformou o futuro. O que existe hoje é uma somatória de todas essas pequenas contribuições. Nenhuma delas é desprezível por ser pequena, todas fazem parte da realidade presente. Desaparecer é, ao mesmo tempo, morrer e tornar-se eterno.

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