Gentileza

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Segue um “causo” de fim de ano – letivo.

Quando um ano letivo termina, parece que sai das costas do docente um muro de Berlin. Embora a gente não pense sobre isso conscientemente, os professores têm uma porção de responsabilidades com aquelas almas. Principalmente, quando estamos falando de Ed. Infantil.

Você é responsável, não apenas pelo aprendizado acadêmico das crianças, mas também de sua formação como pessoa. Não é uma questão de “meu papel, seu papel”. Como professores de Ed. Infantil somos sentinelas das crianças e pessoas que acabam intervindo pelos seus melhores interesses.

Mas, os 200 dias chegam ao final. E acabamos entregando o grupo para um novo ano, uma nova experiência, uma nova dinâmica… esperando que as melhores sementes que plantamos, germinem.

O fato é que o processo educativo é mesmo uma semente que não vemos transformar até que saia do indivíduo. Tem plantinha que morre sufocada pelo meio em que vive. Tem outras, que sobrevivem apesar do meio em que vivem. Algumas crianças criam um jardim dentro de si. Outras, apenas uns pequenos vasos. De qualquer forma, a mão do educador está lá.

Ontem foi um desses dias. De ajudá-los a entender que estão ainda um tanto longe da próxima série… talvez, um mês e meio, um pouco mais. Que certamente amadurecerão mais um tico nesse tempo. E que coisas novas estarão esperando por eles, esteja você, docente, lá ou não. Talvez mais um de nossos trabalhos seja permitir que o próximo professor pegue um grupo azeitado e feliz, capaz de muitas coisas e não apenas um ajuntamento de crianças que precisa de “civilização”.

Pois bem. Na tela do computador, isso parece ótimo e lindo. Não é. Abrir mão de algo cultivado não é fácil. Pode ser que sejamos egoístas. Pode ser que sejamos apegados. Mas, de alguma forma, além de ter o resultado de um trabalho realizado, temos nas mãos a afeição e um vínculo criado com outros seres humanos.

Bobo daquele que pensa que criança é boba. Não acredito que crianças são “puras e inocentes” no sentido romântico da coisa, mas acho que o jeito deles de pensar e sentir passa por menos filtros que os nossos como adultos. O fato é que eles sentem. Nem sempre conseguem colocar isso em palavras… mas, algumas dores que passam o coração adulto, passam pelas crianças. E dói do mesmo jeito.

Na despedida dos alunos que vão para o Ensino Fundamental em 2016, houve bastante emoção. A professora que está com ele, sentou e lhes fez aquelas recomendações que faz quem se importa. E, ao vê-los recebendo aquelas últimas palavras dela, chorou. Seus alunos com ela.

Claro que o tempo é um bálsamo e todos foram voltando aos seus prumos. Sabiam que tratava-se de uma despedida, mas também de oportunidades. As férias estão aqui, hoje. No entanto, uma menina não parava de soluçar. Chegou a verbalizar: “eu quero parar, mas não consigo”.

Vendo aquela criança naquela situação e sabendo um pouco de sua história, não consegui me furtar a chama-la. Não sou sua professora e nem acho que serei, mas é uma responsabilidade de educador e uma gentileza de ser humano.

Caminhamos juntas pelos corredores da escola, a fim de que ela se acalmasse. Fomos conversando… os soluços iam e vinham. Até a hora que ficamos frente a frente.

– Quando eu vi que a S. (professora) ia chorar, não aguentei e comecei a chorar também. Agora, eu não consigo parar.

– Eu te entendo, M., comentei. Quando vemos alguém que confiamos chorar, nos emociona também. Passamos por isso adultas ou crianças. Funciona assim mesmo.

Ao que ela me abraçou e todo o peso do que ela estava chorando foi saindo em palavras…

– Eu não quero ir para o primeiro ano (EF1). Eu não quero ir para (insira aqui um país estrangeiro). Eu amo a S. mais que qualquer outra professora. Eu quero ficar aqui, com ela.

Foi um baque no estômago. Como uma criança de 7 anos consegue carregar e descarregar esse tipo de coisa? Tão conscientemente?

Disse a ela que não teria jeito. Mesmo que ela continuasse no Brasil, as séries mudariam. Os professores mudam. Os colegas. As situações. A vida leva a gente, mesmo que não queiramos. É como o vento que sopra. Não temos controle. Mas, que confiava que ela faria o melhor, por ela e pelo irmão (menor) dela e que acreditava que ela seria uma boa menina, pois é capaz e, acima de tudo, inteligente.

Com água e um pouco de carinho, os soluços sedem. Nos abraçamos novamente e disse a ela que, se tivéssemos oportunidade, a visitaríamos no tal país. Não foi um falar hipócrita para consolar uma criança. Eu realmente me imagino indo àquele lugar e visitando pequenas pessoas que merecem minha consideração. Acredito que S. pensa de forma parecida.

Por fim, eu me dei conta que essa menina, tão nova, sofria de luto. Um de outro lado, pois é ela quem está partindo e o mundo que conhece está ficando.

Quem sabe a gentileza de um abraço e de um ouvido tenha tirado só um pouquinho daquele peso cardíaco. Gostaria que alguém fizesse isso por mim ou por algum dos meus.

Definitivamente, 2015 foi um ano de missões cumpridas.

Pietra

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