A odisséia de Penélope

A odisséia de todas as mulheres.

Mais um livro maravilhoso lido. “A Odisséia de Penélope” de Margaret Atwood é um livro sensível, de uma mulher, para mulheres, sobre mulheres.

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É… não é fácil ser mulher a nenhum tempo. E de fato, para a vida vale uma epopeia. Inseridas no contexto que estamos, literariamente, no qual mulheres muitas vezes servem para levantar arcos de histórias masculinas ou nas quais são aquelas que serão as resgatadas, a história de Penélope e suas 12 escravas nos mostra o quanto a vida não mudou em tantos séculos.

Não é uma questão de fazer dos homens vilões. De jeito nenhum. Pessoas são vilãs. O Bom, o Belo e o Verdadeiro não escolhe gênero. Se instalam no viver das pessoas que buscam coisas diferentes, que têm a ousadia de sair da caixa e olhar em volta.

O livro conta a história de Penélope que esperou por 20 anos o regresso do marido, Odisseu (ou Ulisses) de sua ida à guerra de Tróia. Guerra, aliás, que começa pelo “rapto” de sua prima, Helena e deixou a Grécia em polvorosa. Como toda guerra, vidas se perderam… E o que podemos saber sobre ela pode ter sido bem relatado por Homero. A pergunta é: e quem fica em casa? Mais: uma rainha que fica em casa com gente a sua volta querendo seu trono e suas terras a qualquer custo?

Bem, senhoras e senhores, o que disso não acontece todos os dias? De todas as dores de cabeça que as mulheres passam para seguir para o trabalho, cuidar de casa, dos filhos… tudo junto e misturado? Das empresas que pensam duas vezes antes de contratar mulheres que tenham filhos, pois elas podem faltar no trabalho? E aquelas que acabaram de se casar e podem engravidar e aí tirar licença maternidade? E aquelas que engravidam por conta de uma violência e são compelidas a acreditar que têm culpa no cartório? E as que não querem?

Nosso sistema é cruel de mulheres com mulheres. Sim, ouvimos diariamente que essa ou aquela não presta. Que o estupro é justificado. Que o aborto é condenável. Que nós não podemos ser donas de nossos destinos até que as Moirae cortem os nossos fios e a respiração cesse.

O estratagema de Penélope a serviu para manter sua casa em relativa ordem enquanto homens que se julgavam no direito delapidavam a sua soberania. E não pense que o fez pelo marido e suas terras. Seu marido era apenas uma salvaguarda. Penélope sabia que, como rainha, valia apenas para um casamento consumado e, se em pouco tempo morresse, o rei ficaria, fosse quem fosse, Odisseu ou José.

É curioso pensar que, ainda hoje, se uma mulher utiliza qualquer arma que tem é condenada. Se é a inteligência, é uma dissimulada, desonesta. Se é o corpo, a sexualidade, é uma vadia, uma puta, uma mulher de vida fácil. Acredite, nenhuma vida é fácil. Até a do ímpio, pois o quanto de trabalho ele não tem de ter para fazer crer que sua desonestidade é séria e digna de crença?

Ler livros, conhecer histórias de mulheres sobre mulheres é importante para todos. Para compreender que existe uma batalha queimando. E que as outras são, talvez, espelhos de nós mesmas. No mundo, existe de tudo. E precisa de um olhar sensível. Tanto para não cometermos os mesmos erros quanto para ter a ousadia de ser o que queremos ser.

Pietra

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