De vida e morte

Eu nem sei bem por onde começar esta história. Mais uma que daria um livro. Um conto… entre o horror e a esperança. Ou só um resumo do que a vida realmente é.

Faz meses que eu estou esperando para fazer uma cirurgia para tirar as hérnias das minhas costas. Entre muitos caminhos de ida e volta e trezentas frustrações, acabou a carência do convênio e tinha consulta com meu médico. Tudo feito, foi marcada a dita cuja. De urgência, de novo. Arrumamos tudo correndo, acertamos com o hospital. Mala pronta. Chegada ao hospital. A minha intervenção seria ao meio dia de hoje. Havia uma primeira cirurgia às 7 da manhã. Dia de trabalho pesado para o neurocirurgião.

No momento de fazer a internação, descobrimos que eu não poderia sê-lo porque faltava um exame pré-operatório. Seria feito quando eu estivesse internada. Mas, a falta do mesmo impediu a internação. Ou seja, uma roda viva.

Depois de muitas trocas de palavras altas e mal ditas entre as partes – meus pais e a administração do hospital – nada mudou. Fui ao PS para então poder pegar uma receita de remédio, afinal, lidar a próxima semana – quando eu voltarei ao médico – com dor está fora de cogitação. Além de ser tratada de qualquer jeito pelo ortopedista do PS, que deixou claro que eu queria APENAS um atestado para afastamento – será? – tive minha medicação trocada. Ainda não sei no que isso, exatamente, vai dar.

Entre todos esses movimentos, o meu médico me ligou dizendo que o pedido para os exames pré-operatórios estariam na portaria do hospital para que eu os fizesse, garantindo assim que a cirurgia aconteça no dia 1/10. Muito bem.

Na saída do PS, fui até a tal recepção pegar o papel. Ao entrar, vejo uma moça, um pouco mais velha que eu chorando. Muito. Desesperada e andando a esmo pela rua. Pedia pelo pai. Dentro do hospital, havia uma outra moça, também chorando bastante. As pessoas em volta estavam atarantadas. Claramente, havia uma morte em questão.

No meio do meu transtorno, da minha frustração, olhei para aquela família. E senti uma vontade imensa de chorar. Eu queria resolver a minha saúde. Aquelas pessoas tinham mais uma porção de coisas para resolver. Deu um dó. Talvez uma compaixão, dentro da minha dor, foi ruim ver a dor dos outros. Imagino que maior que a minha.

Entra aí, o twist do destino… Para consolar a família, está o meu médico. O neurocirurgião. A cirurgia antes da minha foi um sucesso, para o além.

Não estou aqui dizendo que é o dia fadado de Tanatos. Não estou dizendo que porque o outro paciente se foi, eu também iria. Mas, imagino que, depois de perder um paciente, um médico quer um sossego na cabeça e não operar outra pessoa.

Sei lá… acho que hoje foi um dos dias mais insólitos da minha vida. Foi também um dia cubista… no sentido de ver a mesma face da vida em suas diferentes nuances.

Como é curioso e rico poder ver a vida se desvelando aos poucos. Eu vi o sujeito que mexeu no horário da minha internação sorrindo e brincando com outras pessoas enquanto meus pais estavam bravos e eu, chorando… de desagravo. Eu vi, um tanto mais calma, uma família despedir-se de uma pessoa querida. Eu voltei para casa, que achei que ia ficar longe por alguns dias. E não me furtei a apertar meu gato longamente.

Quem sabe não foi uma lição de inferno astral?

Que dia estranho.

Pietra

 

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