Distopia brasileira

Geralmente, quando pensamos em “distopias”, determinados clássicos vêm à mente: “1984”, George Orwell ou “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley. Cenários de um futuro indeterminado onde os governos são autoritários, intocáveis e a sociedade funciona de uma forma diferente da nossa, mas que emergiu do colapso daquilo que conhecemos. Curioso é que os autores normalmente se valem daquilo que vêem como periclitante em seu tempo, colocando em seu “futuro” aquilo que já existe, assim, em alguns casos, a TV é o ópio do povo, não a internet… os celulares ainda não formaram zumbis sociais… mas, dá pra ter uma ideia… é o futuro da realidade, do tempo nos quais as distopias foram escritas.

Edição de 2008 . da Global Editora. Eu estou lendo no Kindle, baixado formato MOBI da Lê Livros – http://www.lelivros.site

Bem, aqui no Brasil temos um distopia interessante a ser conhecida também. “Não verás país nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão é um desses livros de deixar a gente de cabelo em pé e, no meu caso, doente para saber o que vai acontecer no final.

Primeiro de tudo, eu resolvi ler o livro por dois motivos:

  • É fundamental conhecermos a Literatura Brasileira e o que ela nos apresenta em seus clássicos além das leituras obrigatórias do ENEM e dos vestibulares ou aquilo que os professores nos enfiaram garganta abaixo no Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio. Na maioria das vezes, são textos excelentes que não temos maturidade para ler e entender como a obra pede. Além disso, muitas das “leituras obrigatórias” circundam entre um determinado período histórico/ literário deixando livros maravilhosos de lado, e fazendo com que o conhecimento geral sobre literatura acabe se prendendo a Machado de Assis ou José de Alencar – não que sejam ruins – mas temos muito mais que isso.
  • Se Ignácio de Loyola Brandão é um grande escritor brasileiro, contemporâneo e, melhor de tudo, vivo porque não aprofundar-se em sua obra? O mais gostoso é que, se você gosta do jeito que ele escreve e pensa pode acompanha-lo no jornal “O Estado de São Paulo”.

Muito bem… distopia. Um universo incomum, desconhecido… baseado naquilo que a sociedade já foi um dia. “Não verás país nenhum” foi escrito em 1981 e conta sobre um Brasil que está desertificado, superpopulado, com pessoas incapazes de pensar por si e aceitam, meio ao calor dos dias e das “comodidades” do Esquema (o governo) o que lhes é provido ou racionado.  Aliás, existe escassez de recursos naturais. Ah, a comida servida para o povo é uma imitação de comidas verdadeiras, ou seja, tudo é feito em laboratório. Parte do país foi vendido para o estrangeiro e os brasileiros pegos no meio da negociata são tratados como refugiados. As pessoas estão doentes pela falta de água, excesso de sol e comidas químicas. Opa, pera aí? Parece familiar?

Evidentemente estamos falando de uma ficção, mas é curioso como o nosso país e o jeito de fazer as coisas parecem que sempre levam para o mesmo lugar. Os alimentos transgênicos estão no mercado… tudo bem que não são comida “factícia”, mas não são o melhor que a terra pode oferecer. A água falta em São Paulo, fato. Falta de cuidado e planejamento. Ainda não estão distribuindo fichas para o nosso consumo, mas convenhamos que é caro e está sendo levado ao extremo.

O que o “Esquema” faz circula dentro dele mesmo. É um governo que se gere e se gesta de forma que o que está dentro não sai e o que está fora não entra. Hoje isso pode aparecer um pouco mais frente às questões político partidárias, mas oras bolas, qualquer romance histórico que for lido ou qualquer escrutino da História brasileira conta como as coisas sempre foram feitas, politicamente, de um jeito porco e que valoriza apenas que já está com as mãos lá. O encanamento governamental é podre desde a época de Cabral. Não é o X ou Y que fizeram as coisas ficarem assim. O lance é que nem X nem Y movimentaram-se para limpar.

Pode ser que nunca encontremos a São Paulo que Brandão coloca em seu livro. Mas certamente nos faz pensar frente à situação que vivemos hoje em dia. O quanto das pessoas já não estão presas dentro de casa? O quanto de fome ainda não se passa por aí? O quão abarrotados e burocráticos são os sistemas de qualquer coisas pública que se precise fazer nesse Brasil…

A leitura em si não é complicada e, uma vez que você lida com as nomenclaturas da realidade distópica, como factício, esquema, locupletação, a história flui. O livro é longo, tem muitos capítulos curtos e, pessoalmente, não consegui largar até o final.

Recomendo para quem tem curiosidade sobre a escrita brasileira contemporânea de qualidade. Recomendo para quem, como eu ou como meus avós, imagina(va) onde é que vamos parar.

Pietra

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