Conflitos internos na loja Kindle

Esta coisa toda do concurso Brasil em Prosa da Amazon tem enchido e esvaziado meu buffer. Esvaziado porque, como nesse blog, eu tenho algumas ideias que gostaria de colocar para fora mais formalmente… e quero crer que as coisas estão indo bem.

Agora, enchido porque estou aqui cheia de conflitos internos em relação ao que eu tenho visto lá na Kindle Store.

Claro que eu fui dar uma fuçada nos títulos que já foram publicados pelo concurso, para ver o que as pessoas têm feito em relação à capas, descrições, paginação etc… E junto com tudo isso, vem as listas do que é auto-publicado na loja em português. Já me causou uma reflexão… Então, resolvi ver o que era mais vendido para ser lido eletronicamente na mesma loja. E foi aí que minha cabeça começou a girar.

Constatei que entre os e-books mais vendidos sob a categoria “literatura e ficção” figuram poucos clássicos. Tudo bem que o novo livro do Umberto Eco, “Número Zero” é o nono – ainda não é um clássico, mas definitivamente, o livro de um bom autor. Depois disso, temos Jane Austen em centésimo. Truman Capote em octogésimo terceiro;  Agatha Christie em trigésimo primeiro… a lista é atualizada de hora em hora e existem autores mais populares blá blá blá. PORÉM qual não é o meu choque em saber que os livros mais vendidos são os genéricos de… tchan tchan tchan tchan… “50 tons de cinza”. Livros que na descrição figuram palavras como erotismo, sensualidade, paixão, sedução e lá vai mais um monte de sinônimos.

Entendo perfeitamente que muitas pessoas curtiram o original e devem ter se sentido órfãs quando a série acabou – Harry Potter feelings – mas realmente é impressionante como esse lance vende. E como tem gente dedicando suas letras a isso. Não é um senso de valor literário – evidente – mas de assombro quanto ao tema. O que eu quero dizer é que não estou julgando quem escreve ou quem lê (ou pelo menos, não publicamente), só achei curiosa a abrangência do tema. Eu SEI que pode parecer uma tremenda dor de cotovelo de uma pessoa com livro nenhum X pessoa vendendo horrores, no entanto vislumbro que o fazer dinheiro está acima de produzir literatura em si; é como uma prática sofista, onde a qualidade literária é relativizada dada a demanda de um público ávido pela leitura de um determinado tipo de texto.

Todo mundo tem seu gosto para leitura. E com todo o direito de achar que um estilo de escrita pode ser massante ou genial; que um determinado tipo de história pode prender imensamente, como foi o meu caso com o “In cold blood” – filho único de mãe viúva, ou seja, nem genérico tem… ou pelo menos não naquela qualidade. Enfim, longe de mim dizer o que cada um deve ler ou não, senão vamos criar uma imensa lista de livros banidos baseados plenamente no gosto de uma pessoa. Como ficaria o mundo se não tivéssemos acesso a obras como “1984” ou “A vida como ela é”, por serem subversivas ou pornográficas demais? Por que alguém leu e não gostou?

Gente… como o comercial grita. Finais felizes, cenas picantes, sujeito tarado remendado por mocinha.

Olha, eu não sei exatamente onde eu queria ir com esse posting, porque ele corre um risco muito sério de se tornar um reclamão de “nem-li-nem-lerei” e de “duvido-que-esses-autores-saibam-alguma-coisa-de-escrita-artística”, mas fico pensando em como uma autora que escreve um desses por mês consegue inspiração, estilo, argumento em tão pouco tempo. Eu li que a escrita não é uma arte, é um esporte. Logo, precisa ser praticado. Agora, alguém me explica por que o Huxley não escreveu um livro por mês… ai, sei lá, estou ficando chata.

Só não acho que a literatura deveria ser absurdada assim. Literário não é o que sai em livros. Literário é o que possui poesia.

Pietra, de buffer vazio de novo… ufa!

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