E “Viva o povo brasileiro”!

João Ubaldo e sua obra ao comemorar 30 anos. Saudades, Ubaldo!

Ultimamente encontramos muitas postagens em redes sociais falando bem e mal do governo presidencial. Falando de desventuras, negociatas. Governos estaduais não escapam… enfim, se há governo, sou contra. E fico curiosa com tanta paixão de um lado e do outro, não defendendo coisas mal-feitas, mas percebo que a coisa vai mesmo por ideologias e por visão de partes das coisas, ou de um total que nem todo mundo enxerga.

Bem, acho que é importante fazer pesquisas e tentar entender o que anda acontecendo. Algumas das minhas ficam sob o olhar do antropólogo Roberto da Matta. No entanto, ele claramente anti-governo… o que tudo bem, porque dá uma perspectiva da coisa.

No entanto, como ler livros nos ajudam a entender muitas coisas, acabei partindo para outros mundos. O que é muito curioso é que muitas vezes os autores se jogam em universos bastante fantasiosos para explicar ou explorar movimentos muito humanos. Caso do “Ensaio sobre a cegueira” e sua sequência “Ensaio sobre a lucidez” do José Saramago. Fico imaginando o que aconteceria se o que acontece na literatura acontecesse literalmente. E se, nas próximas eleições todos os votos fossem em branco? Claramente, como na obra, o governo vigente entraria em parafuso. E talvez aí esteja uma questão interessante, afinal de contas, sem paixões partidárias, quem realmente merece nosso voto para altos cargos? Sempre fiz o que achei mais adequado nas eleições… e isso sempre pede um determinado recorte de pensamentos. Não acho que um candidato a o que quer que seja irá cuidar absolutamente de todas as mazelas. Aquele papo anos 80 de “Salvador da Pátria”…

João Ubaldo Ribeiro fez um percurso muito interessante em sua obra “Viva o povo brasileiro”. Publicado em 1984, são 640 páginas dedicadas a andar desde de pouco depois da independência do Brasil até 1977 e contar como as coisas se estabeleceram nesse nosso grande inconsciente-coletivo de jeitinhos, favores, senões, favoritismos, elitismo e, claro, muitos aspectos positivos de nosso povo. Inclusive há um pensamento muito curioso que, em tempos imperiais, seriam os “europeus transplantados” o verdadeiro povo brasileiro e que todo o resto era uma massa ignóbil e inculta. O quanto disso não foi posto à verdade por meio desses favorismos, de quantos incapazes que ganharam títulos de nobreza, hoje, por exemplo, cargos públicos importantes, deixando a saúde e a educação da grande massa ao léu. Que morram, afinal, quantos mais não virão para suar pelo crescimento do Brasil?

A mente colonizada de onde o Brasil veio se construindo, com suas manias de pequenez fez com que muitos passos errados fossem tomados, e pior, incutidos dentro de nossas cabecinhas.

Eu ainda não terminei o livro… estou na metade e, na história, ainda não fazem 50 anos que o Brasil está independente de Portugal. E quanto de tudo isso ainda não vivemos?

“(…) a ler com a testa perolada de suor e a mente tresvariada, nas conversas e discursos a que prestara atenção tão esforçada, os brocardos latinos vindos depois de capitulares repolhudas, decoradas com imitação da pronúncia do cura de Santo Antônio Além do Carmo. Faria uns torneios hábeis, usaria boas palavras, daqueles que coletava com avidez para escrever num livrinho de notas e passar o dia repetindo em voz alta.”

Ler e conhecer os discursos, as ideias, repeti-las a título de impressionar e não refletir um segundo sobre elas, não faz frente a quem não lê, não sabe… Massa de manobra letrada.

E viva o povo brasileiro!

Pietra

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