Esmaltes, uma pequena história

Unir esmaltes com livros é uma coisa que eu gosto. E quando achei o livro “Nails: the story of modern manicure” – leia sobre o livro aqui – achei muito curioso a relação que a autora faz com a história das mulheres. Maquiagem é algo que sempre consumimos. Parece parte da natureza feminina buscar a beleza. E, por um lado, carregá-la. Talvez seja uma parte intrínseca nossa, afinal quantas coisas não carregamos? A reprodução da humanidade, só para começar… Enfim, sempre houve uma demanda das mulheres pela beleza, dentro e fora de si. Infelizmente, hoje em dia, parece que as coisas foram levadas para fora de proporção. E sinceramente, tem horas que me cansa um pouco o quanto nos dizem o que é bonito ou não, o quanto somos bonitas ou adequadas ao que dizem que é bonito. De uma forma, algumas coisas acabaram ficando tão incutidas dentro de nós que acabamos sempre querendo emagrecer ou sempre querendo uma coisa nova para “embelezar”.

O fato é que a beleza está solta no mundo – tal qual a feiura – e penso que seja uma busca bem pessoa entender o que é bonito aos nossos olhos. Assim posto, uma forma de elevar a beleza pessoal seja pelas nossas pequenas unhas… pelas cores nas pontas de nossos dedos. E as formas de fazer com que estejam lá caminharam com a vida das mulheres, o que estava disponível a elas. Como tudo no mundo, a maquiagem tomou as mesmas formas da sociedade e entendendo um pouco disso, podemos ver como os papeis femininos se modificaram com o tempo.

O esmalte ainda é tão popular porque ele atribui aos dedos um destaque, dá as unhas cores e brilho, como pequenas joias e é uma indulgência relativamente barata de se fazer.

De acordo com a Suzzane Shapiro, a coisa de pintar as unhas, no ocidente, pelo menos, é uma coisa relativamente recente. Houve um tempo, que pintar as unhas ou usar maquiagem, na verdade, era uma coisa indecorosa. Na França, a maquiagem ficou até guardada para OS nobres, deixando para as mulheres apenas um pó branco intenso para o rosto. Sobrou para os cabelos e para as roupas. Mas, o tempo fez sua mágica e, nos anos 20 do século passado, a maquiagem voltou com força e a expressão das mulheres ganhou destaque. Era uma liberdade que se ansiava a muito, desde a época vitoriana, quando tudo era muito penoso, difícil e pecaminoso.

Logo, o esmalte tomou o gosto e foi, até a Segunda Guerra Mundial, um artigo bem importante de beleza feminina. As primeiras cores eram mais claras, mas com a possibilidade de muitas camadas e logo, da cor vermelha, as empresas como a Cutex, venderam muitos e muitos vidrinhos entre as décadas de 20 e 30. Mesmo com a crise dos anos 30, o esmalte continuou a ser buscado e muitas marcas se desenvolveram. Novas cores também. Embora o vermelho fosse o mais querido, afinal voltava para as tendências europeias da época, o branco ganhou espaço. A Guerra acabou mexendo um pouco com essa dinâmica, pois tanto a falta de matéria-prima para fazer a maquiagem quanto a entrada das mulheres num mercado de trabalho sem homens, fez com que os esmaltes sofressem um pouco em qualidade e consumo. No entanto, a moda já tinha pegado e era possível comprar um pouco de maquiagem para um “ar mais refrescado” no trabalho pesado das fábricas e das casas.

Já nos anos 50, com o fim da Guerra uma certa abundância de materiais para serem explorados, uma nova era de glamour se instaurou. Muitas novas marcas de esmaltes despontaram, mas curiosamente, os vermelhos continuavam muito populares e símbolos de um status que se queria perseguir.

Isso acabou mudando nos anos 60, quando as mulheres começam a rever seus papeis. Elas não queriam o glamour e a “vida doméstica” que suas mães tinham. Isso se refletiu na moda e no que era visto como bonito. Desde roupas mais enxutas e um olhar para um futuro mais arrojado, fez com que novas cores ganhassem as pontas dos dedos das mulheres “modernas”, como o rosa, o nude, e o comprimento das unhas caiu sensivelmente. A mulher dos anos 60 queria movimento. Unhas imensas e vermelhas eram um símbolo de uma era passada e “aprisionava” as mulheres ao seu papel de mãe e dona de casa.

As décadas seguintes foram ainda mais intensas, porque os anos 70 e 80 consolidaram a independência e autonomia feminina. Nascem aí os primeiros sinais da nail art, como conhecemos hoje, a ênfase nas mulheres negras e com elas, a inúmeras possibilidades étnicas que poderiam ser perseguidas em termos de maquiagem e esmaltes.

“The rest, as they say, is history”. Mesmo quem não acompanha as últimas modas, acabamentos, coleções ou cores pode encontrá-las entre as amigas, familiares, ou entrando em uma perfumaria. Hoje, temos um movimento muito livre, embora haja bastante ênfase na nail art e nas unhas “impecáveis” que o gel ou o acrílico podem proporcionar. A internet também ajudou muito, pois as empresas se promovem dessa forma e quantas pessoas que conhecemos não postam fotos de suas unhas da semana?

É isso… a vontade de estar bonita nos move. Claro que não é a mão feita ou não que determina o quão belo alguém é, mesmo porque sabemos que isso é, como tantas coisas, uma forma artificial de fazer algo do corpo destacar-se. No entanto, uma nova manicure é quase como história nova a se contar, uma forma de colocar um pouco do que pensamos e de como agimos no mundo. Uma pequena colocação de nossas posturas na vida.

Estão vendo? Esmalte também é cultura… do nosso mundinho moderno.

Pietra

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