Mente em branco

Faz uns dias que uma dita dor no ciático vem me tirando a tranquilidade. Porém, há pouco passei por uma experiência muito curiosa – se bem que foi desagradável – mas digna de nota. Eu tive tanta dor por um tempo que eu não conseguia pensar. Foi incrível.

Primeiro de tudo, porque eu tenho a impressão que minha cabeça está sempre cheia de pensamentos, de buscas e entendimentos do que me cerca, de meia dúzia de reclamações e de preocupações que não cabem aqui, mas que, provavelmente, são muito parecidas com as que as pessoas têm todos os dias. Além de pensamentos sobre o que escrever aqui, como lidar com as crianças, mini-inspirações sobre o que eu leio e coisas assim. No entanto, por um dia, havia nada. Foi como estar com o mal branco descrito por José Saramago no “Ensaio sobre a cegueira”. Nada…

E por um lado, foi uma experiência incrível, porque eu realmente não acreditava que a nossa cabeça poderia ficar vazia. E nem na dor eu pensava mais, pra falar a verdade. Era uma véu branco, como estar com uma página do word na sua frente contendo 0 palavras. Nem título.

Por outro, depois, claro, fiquei pensando sobre isso… Afinal, tudo volta. E parecia que eu mesma não estava contida ali. Em mim.

Talvez seja parte intrínseca do ser humano, pelo menos como eu entendo, ter a cabeça funcionando. Nem que seja para admirar algo que está-se vendo, ou para analisar algo que acontece, para fazer um pequeno plano de daqui dois minutos. Estamos com a cabeça desfilando figuras e alguns diálogos próprios que podem parecer boas ideias, que nos fazem rir, que levam lágrimas aos olhos…

O mal branco levou as pessoas a ficarem um pouco zumbis. Se virarem num mundo novo no qual o estímulo visual não existia mais. E quanto estamos acostumados com isso? A leitura é parte disso. Tudo, ou muito do que fazemos tem os nossos olhos como pares para entender, perceber, analisar. Quando uma coisa assim falta, podemos até perder o controle. Podemos nos levar a alguns extremos. Não vou dizer que isso não aconteceu. Dei uma perdida no meu “eu”. Era como se, da minha própria cabeça, eu tivesse sido apagada. E ainda, quando voltei, fiquei pensando em tudo que precisava ser posto em ordem, me ter ali de volta.

Isso faz refletir um pouco sobre como nos atolamos em nós mesmos. E por outro lado, quando de tudo que nos envolvemos pode existir e acontecer sem a gente. O mundo não parou porque eu parei de pensar. Porque eu estava envolvida em uma outra coisa…

De novo, por conta da dor, não foi algo que eu quero passar novamente. Porém, pela experiência, valeu para poder perceber e percorrer um tico do caminho sem que eu mesma estivesse ali.

Pietra

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