Relato de um processo de criação

O posting do blog “Morar com a Morte” rendeu uns acessos bons e ótimos comentários, principalmente no Facebook. E isso acabou me inspirando. O B. também gostou bastante do texto e da reflexão e acabou me sugerindo algumas cenas, daquele jeito imagético que só ele sabe fazer. Sentei-me ao computador semana passada para começar a fazer de um texto mais reflexivo em um pequeno conto. Assim que eu puder, compartilho, prometo =) Parte 1.

Li “Alabardas, Alabardas”, e nele algumas anotação de como José começou a pensar a escrita do romance. Achei muito interessante essa parte anotada do processo. De quem serão as personagens, um possível final. E ainda: como transformar uma ideia em uma trama. Talvez essa seja a parte mais complicada. Ainda, nesse livro, pensei na formação dos nomes das personagens. Artur Paz Semedo trabalha numa indústria de armas, tem nome de general, paz – auto explicativo – e sem medo… um homem que não ligava para o que sua função fazia e gostava de filmes de guerra. Sua ex-esposa, Felícia, pacifista… feliz (?) e tentando abrir os olhos que quem está ao seu lado.

Pensando em tudo isso, comecei a fazer as minhas pesquisas, tanto sobre o caso da mulher emparedada… não queria que fosse a vítima do caso exatamente, pois a minha questão não foi exatamente com o que levou ao ocorrido, mas o ocorrido em si… Então, para desenhar essa história, dessa mulher presa falasse com o emparedador, corri a algo que eu conheço bem (modéstia a parte): o tarot.

De um processo de criação...
De um processo de criação…

Primeiramente, fui a um dicionário de nomes… para que fossem tão alegóricos quanto a história que querem contar. Henrique, o senhor da casa e Jacinta, ai de mim, nasceram. Seus sobrenomes também tiveram esse cuidado.

Em seguida, cartas. No tarot temos todas as situações da vida. Soltas em cartas. Então, por que não junto-las e entender quem podem ser aquelas pessoas que subirão ao seu palco de folhas em branco? Perguntei ao tarot, quem eram aquelas pessoas, o que pensavam… Fiz uma leitura conhecida como “Templo de Afrodite” para entender seu relacionamento. Estou ainda colocando um “pequeno” motivo que pode despertar o Diabo do cimento. O que pode fazer uma pessoa comum tornar-se um monstro? Foi como eu vi no livro do Neil Gaiman, os monstros também têm medo… são amedrontados… como o Diabo é confuso.

Por fim, venho descoberto que a criação não é um processo solitário e isolado. Li os dois textos de agradecimentos dos últimos livros: “Dr. Sleep” e “The Ocean by the End of the Lane”. Ambos mencionando muitos nomes de pessoas que agregaram ao processo. Não tem jeito. Acho que pouco se faz sozinho… As outras pessoas são sempre as outras perspectivas.

Ainda, fico pensando na ideia de que muitos escritores contam de que suas histórias e suas personagens ganham uma determinada vida dentro de suas histórias… que chega uma hora que o escritor pouco controla. Não sei se ainda cheguei lá.

O que eu tenho aqui dentro é que a escrita sobre a escrita é um passo muito importante. Deixar as trilhas e ter uma gênese. Acompanhar como quase uma história de vida.

O conto da mulher na parede ainda está em seu começo. Jacinta e Henrique mal e mal começaram seu romance. Ela vive para todos os dias, como manda uma sociedade e uma cultura de massa… ele tenta crescer na vida e desafia uma morte. Mas, como é possível, uma vez que todos perecem? A morte que vem da vida, e a morte que é impulsionada pelas mãos dos vivos. E, embora, saibamos como isso vai terminar, são muitas letras que levam até lá e precisam ser deitadas no papel.

Palavras alimentam histórias. Histórias alimentam histórias. Histórias alimentam as pessoas que talvez tentem entender como as pessoas funcionam. Um poço bem fundo.

Pietra

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