Morar com a morte

Sujeito matou uma mulher e emparedou o corpo. Quando eu ouço a notícia, imediatamente não tenho como não me remeter a Edgar Alan Poe e o gato preto. No caso da vida real (?), ele ficou morando na casa por mais 9 anos com aquela mulher mumificada em suas paredes. Foi descoberto porque vendeu a casa e ela foi submetida a uma reforma.

O que levou ao crime foi o mais “trivial” e mórbido: ciúmes… o não deixar partir. E isso tornou-se tão corriqueiro… Fins de relacionamento que precisam terminar com a vida de um dos envolvidos. O que faz uma pessoa achar que tem qualquer propriedade sobre outra vida. Se temos um bichinho de estimação, não temos propriedade sobre eles. Somos responsáveis, tutores como gosta-se de falar. Quanto mais sobre outro ser humano? E como são tratadas tantas mulheres, crianças e idosos que ficam sob a custódia da loucura alheia.

Fico imaginando se o sujeito empreiteiro de corpos tinha algum diálogo com aquela mulher sentenciada ao cimento. Daquela pessoa que tornou-se um objeto de decoração do egoísmo de outrem. É muito sério. Também fico, pensando se ela não dizia coisas a ele. Será que aquela mulher presa não enchia aquela consciência?

“Você me prendeu aqui… mas não ache que será para sempre. Uma hora, essas paredes se arrebentam. Eu me livro de você.”

“E o que mais você vai fazer com suas outras mulheres? Transformá-las em piso? Em lage?”

Barba azul da periferia de São Paulo foi descoberto. Dos gritos abafados em suas paredes. Talvez não o corpo, hoje solto da estrutura, mas a memória engessada naquilo que se faz e não se apaga.

Essas histórias macabras sempre chamam a atenção. O que mais está dentro das pessoas? Que são esses fantasmas que assombram e desejam sair ou que precisam ser reconhecidos? Onde será que nos espelhamos nas mulheres emparedadas dos outros?

Nem sempre esses malucos prendem suas mulheres literalmente. Porém criam cárceres muito bem guardados, fragilizando a existência de outras pessoas. Palavras e pequenas atitudes podem ir, aos poucos, roubando a vida de outra pessoa. A ponto em quem ela se encontra tão cativa que parece se afogar em sua própria existência.

Sempre que uma história mostra o quão obscuro o ser humano pode ser os ouvidos tornam-se altos. Quando as palavras refletem os escuros mal lidos, são corridas respostas, ponderações.

É preponderante que se quebre o espírito daqueles que consideram-se donos de outros. Que se pregue suas gargantas e suas mãos em suas más intenções. Nem que se arraste para a saída, o carrasco precisa ser abandonado e, quiçá, preso. Tanto fisicamente, quanto em sua essência. Que sejam lavados em seu próprio ácido.

Sinto muito pela mulher que foi presa em sua morte. Mas espero que sua voz, seus pedidos sejam refletidos em cada espelho daquela casa. Dentro da cabeça de quem é cego de piedade. De humanidade.

Pietra

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