Aborto, 50 tons de cinza e as regras sobre os nossos corpos…

Impressionante como sexo e temas afins mobilizam pessoas e criam discussões apaixonadas. Como cronista dos tempos modernos, Zeus me ajude, esses assuntos em específico vem chamando imensamente a minha atenção. Aliás, é curioso também pensar que mesmo sem pensar muito as pessoas já tem opiniões sobre todos esses assuntos: leia, não leia; vá ao cinema, não gaste seu dinheiro; poste sua foto grávida; não poste etc etc etc. E de novo, tudo isso sobre a sexualidade da mulher.

A sexualidade, inclusive que fez possível com que estivéssemos por aqui nesse mundinho de meu Zeus, pensando (ou não), opinando e escrevendo em um blog qualquer perdido no meio do WordPress. EU SEI que o que eu penso não faz muita diferença nesse mundo, principalmente em um no qual se adora cagar ditar regras sobre tudo, muito mais sobre o corpo da mulher e o que ela MESMA faz com ele.

Oras bolas, muito bem. Vamos lá então.

Primeiro de tudo, que o corpo da mulher não é feito tão somente de seu aparelho reprodutor. Mulher é olho, é boca, é cérebro, é mão, é costas cansadas, pernas doendo – muitas vezes. Levantamos cedo, trabalhamos muito, fazemos comida, passamos roupa, atendemos telefone, descascamos pepinos, lemos, fazemos sexo. Ou não. O ponto é que, se ao chegar em casa e querer abrir um livro como “50 tons” ou qualquer um de seus spin-offs, todas AS PESSOAS têm esse direito mais que soberano sobre si mesmas. Eu poderia cagar dizer uma regra que o livro é literatura ruim, que é de gosto duvidoso, que existem muitos clássicos esperando para serem lidos: sem dúvida que sim. O que ainda assim não me faria arrancar das mãos de qualquer pessoa seu exemplar de “50 tons” ou mesmo o ingresso de cinema de quem o deseja assistir. Cada um tem seus gostos peculiares que nem todos entenderiam. Ainda, insisto, com o direito soberano de lidarem com eles como acharem mais conveniente.

Minha visão muito particular sobre essa história e outras que surgiram nessa linha é que se trata de uma objetificação do livro e da leitura. Transformar a literatura em algo consumível rapidamente. E como fazer isso rapidamente? Sexo vende. E vendeu muito. E vai render muito box office por aí. Independentemente de ser bom, ou interessante, de ter um diálogo com o leitor – que deve ter em algum ponto – é criar o sentimento de necessidade e desejo: como assim vc AINDA não leu? Viu? Ouviu? Experimentou? E gourmetizações do gênero. Talvez, se “50 tons” não tivesse o marketing que teve por cima, seria mais uma “Julia” ou “Sabrina” na banca de jornal – que aliás, sempre venderam muito bem obrigada.

Tudo isso pega porque sempre se quis dizer muito às mulheres o que devem ou não fazer com seus corpos. Ser uma santa, ser honesta, ser uma puta, ser uma louca, ser uma irresponsável e longa lista de possibilidades. Antes de tudo, que diferença que faz o que cada qual faz em seus gostos peculiares que nem todos entenderiam em seus quartos peculiares que nem todos entenderiam? Precisamos MESMO mostrar? Eu sei que o ser humano é curioso por natureza e quer saber o que acontece com o outro, quer se relacionar com a humanidade de quem o cerca, no entanto vale a pena refletir que deixar essa brecha ou prerrogativa à disposição, também dá entrada para outros tipos de humanidade e seus tabus, fofocas e criações. É um terreno bem delicado, cheio de areia movediça.

E nisso tudo, aparece a questão do aborto, sua legalização ou não… ou melhor, sua legitimação ou não. É curioso notar que explorar a sexualidade é bacana e que ver um filme ou ler um livro de pseudo-BDSM – e mesmo pseudo-literatura, eu insisto – é tudo de bom, é algo que se almeja, que tem um tremendo movimento de massa sobre, enquanto o que pode acontecer não é dito, é condenável, faz das mulheres que assim optam párias.

Fato é que a natureza nos deu a possibilidade de desenvolver um outro ser humano dentro de nossos corpos. E que isso acontece mediante a contato com um homem (pra simplificar a história). O que eu fico pensando é que se “o momento mágico” e mega-glamourizado da maternidade não é manipulado por mídia e pela criação de uma tradição cristã que está por trás de muito que se desenvolve no mundo ocidental – pelo menos. Claro está que, quem DESEJA ser mãe está em seu direito mais que supremo sobre seu corpo e seu futuro. De uma forma que pode ir-se além da natureza com tratamentos e adoções para fazer a coisa acontecer de verdade. Agora, quem não deseja? Pior, quem deseja e sabe que dentro de si desenvolve-se um ser que tem poucas ou nenhuma chance nesse mundo físico? E quem foi tomada à força? E quem simplesmente não tem capacidade emocional e psicológica para cuidar de uma criança? É mais humano deixar uma criança crescer ao léu, seja ele figurativo ou literal?

O aborto, tal qual a exploração do corpo da mulher em sua multitude de habilidades e possibilidades tem de ser algo de foro absolutamente íntimo. Sabe-se que lidar com o corpo e com a saúde de qualquer um não é como colocar um livro de lado. Pode envolver a vida de alguém. Mas, será que está no senso comum condenar quem o faz? Não legitimar o direito das pessoas em lidar o melhor que podem com suas vidas? Em simplesmente não criarem mais órfãos funcionais?

Existem muitos lados para essas histórias todas. Porém, de tudo, o que ainda me pega é que implica-se: explore seu corpo, conheça sua sexualidade, a explore etc etc etc mas, tenha filhos. Muitos. Eu sei que existem métodos contraceptivos, mas sei também que existem muita ignorância e ódio sobre as mulheres e o que seja que façam com seus corpos. E sinceramente não acho que o governo possa regular sobre isso. A educação e a civilidade é que ajudam as pessoas a tomarem decisões informadas e não dispensarem aqueles que pensam diferentemente de si.

No nosso mundo, nada mesmo é preto no branco…

Pietra, que se desculpa pela imensidão do posting e compreende quem não o ler e quiser esperar o filme.

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