De quando a nossa cabeça nos engana

Sabe aqueles dias em que olhamos em volta e vemos que está tudo bem? As coisas de casa estão em dia – mesmo com o racionamento de água, o trabalho está bem, ou seja, está tudo em ordem. Você senta-se ao computador pensando na página em branco na sua frente e sua cabeça começa a rodar. Pensa numa história X, numa crônica Y. Pensa em História, Antropologia, Psicologia e, então, pensa como a vida da Chiquinha é mais interessante que a sua. Ou que a rotina da Joana seria ideal. Que o lance que a Maria vai fazer é o que você sempre quis na vida. Que a silhueta da Ana é tão mais adequada que a sua barrigota pra fora do cós.  E bate uma certa tristeza.

É o típico clichê da vida: a grama mais verde… E, talvez, hajam momentos que ele seja inevitável. Por que não eu? Por que não a minha natureza? Será que eu não trabalhei o suficiente? Será que eu não sei usar as minhas palavras direito? De onde vem isso? Ou aquilo? Mais e mais pensamentos que só nos servem, bem, de nada.

Ultimamente, vi um posting de rede social falando sobre uma experiência de passar uma semana e depois um mês sem reclamar. E, embora não façamos isso textualmente – mesmo porque eu acho que ficar chiando no Facebook é muito chato – acabamos o fazendo dentro de nossas cabeças.

Ok. Acontece. Agora… eu não consigo deixar de tentar observar os outros lados… E fazer paralelos. Natureza libriana, eu imagino. Se no meu prato tem X e no da Joana tem Y, o que será que faz este meio? O que será que há no prato dela que eu não estou vendo?

Tenho certeza que essas pessoas as quais olhamos a grama e damos suspiros profundos, podem ou devem fazer o mesmo. Quiçá até sobre a minha grama. Sobre o meu quintal. Afinal de contas, se eu olhar sem medida de comparação, meu quintal está bem bacana. Do que eu penso, posso, sei, consigo, considero, faço parece que é o melhor. Sem dúvidas, existem momentos nos quais o corpo mole se faz presente, porém, quem não e quem nunca?

Será que, por trás do lance que a Maria vai fazer, não tem uma questão que não pode ser completamente exposta? Será que no corpo da Ana não tem a não atenção que ela dá por que há um milhão de outras coisas rolando, que eu nem imagino e que talvez nem quisesse passar por elas? Será que na vida da Chiquinha tudo está como o Instagram mostra? Eu não sei. E também, não tenho coragem de perguntar.

O que me parece é que nossas vidas são repletas de especulações sobre tudo que não sabemos, nem imaginamos. Ao olhar o nosso quintal, por que, meus deuses, parece tão difícil de notar o quão bela é a sua grama? Os seus canteiros? Mais ainda: por que, sabendo que nossas floreiras estão belas e bem cuidadas viramos o rosto para o outro lado? Sinceramente, até penso que é a super exposição de tudo no mundo de telas de toque contemporâneas.

O que precisamos, muitas vezes, é do olhar do outro jardineiro, afinal, nem sempre cultivamos algo sozinhas.

Por fim, são as escolhas. Não podemos balizar o que nasce aqui baseadas no que se planta lá. Só cada uma de nós sabe o que precisa ser feito, o que precisa ser mais cuidado. E é aí que a cabeça engana. Porque se efetivamente fazemos nosso melhor na grama do lado de cá, como podemos não ver como ela cresce? OU como saber o que já está no chão alheio?

Não dá pra viver do que deveria ser. No limite, é colher os nossos próprios limões e fazer nossas caipirinhas =)

Mais uma crônica da vida moderna…

Pietra

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2 thoughts on “De quando a nossa cabeça nos engana

  1. Incrível entrar na sua página e avistar o link desse texto que eu não tinha visto e que fala de coisas simplesmente que eu estava pensando meia hora atrás! Sobre como às vezes eu me debruço sobre o mesmo tipo de questão que você colocou aqui e como eu estava avaliando que às vezes as coisas não são tão lindas do lado de lá. E sobre como também eu posso continuar fazendo o meu do lado de cá que vai ficar tão bom quanto.
    E principalmente… Será que não é uma ilusão achar que se eu estivesse no lugar do cicrano eu ía realmente estar tão feliz?

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